JOURNEY AROUND KENYA IN 12 DAYS – PART III


Durante as poucas horas de serenidade matinal tivemos oportunidade de ver a natureza em todo o seu esplendor, com a maravilhosa luz da manhã e uma selecção invejável de animais selvagens, incluindo belíssimas chitas e leões. Não que o nosso motorista fosse também guia de natureza (como nos tinha sido dito), pois ele além de não conhecer bem o parque sabia menos ainda sobre a vida selvagem e limitava-se a seguir os outros carros de turistas com guias a sério. Mas menos mal, foi uma manhã fantástica e entretanto seguíamos para a saída do parque porque tínhamos uma longa viagem de regresso pela frente.

E já quase a sairmos eis que o insólito acontece. O Moses pára o carro e diz que não quer sair por aquela entrada porque tem medo de estarem lá os guardas do dia anterior e de o multarem. A alternativa era recuar cerca de 150 km para apanhar a estrada de Narok, que é uma das piores do país e que fica a uma maior distância de Kisumu. Ora, quais eram as alternativas? seguir o nosso caminho e se os guardas aparecessem ficar ali uma eternidade, ou apreenderem-nos o carro, ou fazer mais quilómetros, andar mais umas horas de carro e gastar mais gasolina, para a qual o meu orçamento se encontrava limitadíssimo. O mais absurdo: não termos falado sobre isto à saída do lodge e agora termos de voltar tudo para traz.

Dissemos-lhe para fazer o que entendesse, na certeza de que nós não pagaríamos multa nenhuma, nem subornaríamos nenhum polícia e que precisávamos poupar gasolina porque estávamos quase sem dinheiro. A opção foi voltar imediatamente para trás e o nosso pesadelo começou. Ainda nos rimos de vez em quando, porque era tudo tão absurdo que não dava para mais, mas depois o cansaço começou a acumular-se, o pó a entranhar-se na pele e na garganta e foi penoso. Nesse dia saímos do lodge às 7h da manhã, a seguir ao pequeno-almoço e chegamos a casa depois das 9h da noite, sem comer e sem sair do carro. Pelo caminho e apesar da tensão de controlar o ponteiro do combustível e pedir constantemente ao Moses para não passar dos 100km/h para poupar gasolina, ainda tivemos uma paragem em Bonet para ele cumprimentar o irmão e ir beber uma gasosa com ele enquanto nós torrávamos no carro ao Sol e assistimos ao despontar da irritação do Moses perante o quadro inimaginável para ele de os mzungus não terem dinheiro. É preciso explicar que é uma crença geral o facto de todos os mzungu serem ricos e poderem ser absurdamente explorados. E quando eu disse logo no início da viagem que não estava a contar com a despesa da gasolina e que tinha pouco dinheiro comigo (tinha levado algum, por acaso, para comermos pelo caminho, comprar umas lembranças… e pouco mais) eles simplesmente não acreditaram e ele agiu sempre como se eu pudesse pagar tudo e ficou irritado por isso não ser verdade.

Quando chegamos a Kiisi, a última cidade antes de Kisumu a cerca de 100km eu ia atentamente a controlar o ponteiro que ainda não tinha entrado na reserva e disse-lhe que ia meter 500 ksh, que com a gasolina da reserva era suficiente para chegar ao nosso destino pois não tinha intensão nenhuma de deixar uma gota de gasolina no carro para o vigarista do patrão dele. Ele chateia-se. Claramente para o Moses a reserva era um buraco negro. Nunca tinha passado do último tracinho antes dela e não acreditava que abaixo daquele traço ainda houvesse gasolina. Para mim foi a gota de água. Disse-lhe que não tinha mais dinheiro e portanto para ele se desenrascar.

Ficamos umas duas horas paradas na bomba de gasolina dentro do carro à espera que ele resolvesse o problema. A dada altura a Mónica morta de fome pega num queque que ainda tínhamos no carro e mal o leva à boca aparece um puto colado ao vidro a dizer que tinha fome (esclarecimento: aquela é uma das zonas mais férteis do país; as pessoas são pobres, podem ter deficiências nutricionais, mas não passam fome). Que cena absurda. O puto provavelmente estava empanturrado de ugali, a papa de milho que comem como se não houvesse amanhã, mas como éramos mzungu cria cravar um bolito e nós cheias de fome…

Finalmente, o Moses arranjou dinheiro, fez-se à estrada e deixou-nos finalmente em casa. Apesar de muitas promessas de reembolso e desculpas pela cobrança indevida da gasolina por parte do patrão dele… até hoje não vi um único xelim.

E aquele que era para ser um safari super especial de imersão na vida selvagem e no estereótipo africano acabou por se transformar num safari super especial de imersão na mentalidade local, nos insólitos do meu dia-a-dia e na realidade africana. A minha irmã adorou :).

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3 Respostas

  1. eheheeh, gostei da história, não podiam ser sempre histórias maravilhosas de pessoas e natureza fantásticas, gosto das tuas histórias duras ou reais… A tua irmã gostou especialmente pq?

  2. 🙂 Era bom que as histórias fossem sempre glamorosas! Não é à toa que eu não gosto de viver no Quénia. Agora é um pouquinho melhor, numa cidade mais pequena e onde conheço mais ocidentais, mas mesmo assim, a minha vida tem muitomais disto do que do resto, eu é que me esforço por valorizar o bom e o bonito e desvalorizar o resto.
    Quanto à minha irmã ela gostou de viver o absurdo, o insólito, de experimentar a minha vida quotidiana 🙂 Rimo-nos muito. Mesmo muito. E depois ela acabou por viver o esteriotipo africano, por ver os animais, tem fotos fantasticas, mas também experimentou o racismo local, onde nós os brancos somos o elo mais fraco, a mentalidade local, a maneira de fazer as coisas por cá e foi como ir a outro mundo e voltar 🙂 Foi imperfeito, como a vida.

  3. Olá gabriela,
    Adoro lêr as tuas histórias…
    Eu nunca estive em África, mas sei que lá o meu coração bateria mais depressa!!! 🙂
    bjs
    Juca

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