JOURNEY AROUND KENYA IN 12 DAYS – PART II


Maasai Mara é um parque de safaris sobrevalorizado, a meu ver. Os preços são exorbitantes e no Quénia o que não faltam são parques extraordinários. No entanto, quando se quer ter contacto com o estereótipo africano, da savana e da vida selvagem, o Mara é incontornável. E por esse motivo fui lá outra vez. Queria que a minha irmã tivesse a experiência de um safari que corresponde ao imaginário que toda a gente tem dos safaris e queria que fosse especial, se possível com uma noite num dos lodges luxuosos (eu tenho um bocadinho a mania das grandezas, mas percebi rapidamente que sou pobre).

Um amigo de uma amiga tem uma agência de viagens aqui em Kisumu e resolvi pedir ajuda profissional para aproveitar ao máximo a experiência. O lodge não pôde ser verdadeiramente um dos de luxo porque custavam todos de 150 euros/dia/pessoa para cima, mas arranjamos uma alternativa simpática e tínhamos carro de safaris com tecto aberto, motorista e tudo organizado ao pormenor (pensava eu… mas adiante). Como já tive uma muito má experiência com viagens organizadas ao Mara… e com os quenianos em geral quando se trata de explorar mzungus, que acabou por ser muito mais cara que o inicialmente negociado, desta vez confirmei cuidadosamente se o valor final incluída tudo… mesmo, mesmo tudo.

A grande aventura começou às 5.30 da manhã com o Moses a chegar a casa para nos levar ao parque. Dormimos pouquinho e estávamos super cansadas, mas lá fomos animadas para o carro. Antes de sair da cidade paramos para abastecer e no final o Moses pede-me dinheiro para a gasolina…. brincamos!… “What!? I already paid for everything”, disse-lhe eu já a rosnar-lhe nas canelas, que ainda por cima àquela hora a simpatia ainda não está operacional. Ele liga para o patrão e passa-me o telefone. Reafirmei que não pagava nem mais um tostão, sobretudo depois de ter insistido tantas vezes em confirmar se estava tudo incluído. Ele tentou argumentar que a gasolina era sempre à parte… eu disse “Não pago!” e devolvi o telefone ao Moses que trocou algumas palavras com o patrão, pagou a gasolina e seguiu viagem.

Quatro horas depois, chegamos à última povoação antes do parque onde se pode abastecer e o Moses pede-me dinheiro outra vez…. Brincamos! “Eu disse que não pagava mais nada!”. “Mas eu não tenho dinheiro.”. “Mas pagaste a gasolina à saída da cidade!”. “Paguei, mas foi com o dinheiro que o patrão me tinha dado para as entradas no parque e agora não tenho mais e a gasolina está a acabar.” Nesta altura eu deitava lume pelos olhos e só me apetecia cometer atrocidades violentas com o homenzinho. Não só não tínhamos gasolina, como ele não tinha dinheiro, como ainda tinha gasto o dinheiro das entradas e em momento algum lhe ocorreu que eu podia não ter dinheiro comigo. As coisas não começaram da melhor forma!

A única coisa a fazer naquela altura era abastecer e seguir viagem e lidar com a perda depois, mas eu não estava em mim e fiz um esforço enorme para me conter e não estragar aquele que eu queria que fosse um safari muito especial. Lá fomos. Tinha chovido nos dias anteriores e as estradas, em terra batida estavam impraticáveis o que tornou tudo mais difícil e moroso, mas lá acabamos por chegar à entrada. Nessa altura também tinha de me chegar à frente com os bilhetes e se, como residente em pago apenas 10 euros, a minha irmã como turista, paga 40 e com tantos gastos extras eu estava a ver a minha vida andar para traz, por isso fiz um choradinho ao guarda na recepção, que ela tinha esquecido o passaporte, mas era residente… uma cabeça no ar, mas boa pessoa e tal e sim senhor, ela podia pagar como residente só que como íamos para um lodge do outro lado do parque podíamos pagar na outra entrada. Confesso que nem pensei, agradeci e seguimos viagem.

Dois minutos depois de entrarmos no parque e chegados a uma bifurcação, onde para um lado seguia uma larga e seca picada e para o outro um caminho de lama profunda, o Moses resolve ser radical e atirar-se à lama. Como está bom de ver ficamos atolados e todos os esforços dele para nos tirar de lá ainda nos enterravam mais. Eu e a minha irmã estávamos de pé nos bancos apoiadas no tecto a ver a paisagem e o Moses ia fazendo o que podia para desatolar o carro. Ele acelerava e nós enterrávamo-nos. Depois saia apanhava pedrinhas, metia-as debaixo das rodas, acelerava outra vez e continuávamo-nos a afundar. A minha irmã, recém-chegada ao maravilhoso mundo dos animais questionava-se se era seguro estar ali parada com o tecto aberto porque, sei lá!, um leão podia aparecer sem ter almoçado… só nos ríamos. Muito tempo depois e já cansada de ver a história repetir-se, pergunto ao Moses se não era melhor ligar para o patrão para ele ligar aos rangers do parque a avisar que precisávamos de ajuda. Demasiada informação. O homem olhou para mim como se eu tivesse acabado de ler o manual de instruções de segurança de uma central nuclear. E encolheu os ombros e continuou a apanhar pedrinhas. Finalmente, aparece gente. Dois grandes carros de safaris cheios de gente com pinta de ir para os lodges onde eu não pude ficar. Um dos motoristas trocou algumas palavras com o Moses e depois circundou o nosso carro, posicionou-se de frente para nós e bateu de frente, violentamente, empurrando-nos com a grelha gigante para fora da nossa piscina lamacenta. Foi uma operação de salvamento à queniana!

E lá seguimos pelo parque fora a ver a bicharada. Uns dez minutos depois vemos uma belíssima e enorme manada de elefantes a atravessar a estrada a caminho de um lago, mais à frente. O Moses sai da estrada e vai atrás deles parando na margem do lago de onde tiramos fotos fantásticas. Quando regressamos à estrada, no entanto, aparece um carro patrulha de guardas do parque e manda-nos parar. O Moses saio disparado quando o chamaram e deixou o carro atravessado. É absolutamente impensável para qualquer ocidental entender o medo, pânico que os quenianos têm a qualquer tipo de autoridade. Sendo que autoridade se resume a qualquer criatura que fale grosso, seja mal educado e prepotente e se tiver uma farda, então é mesmo muito mau porque só falta encomendarem a alma ao senhor e atirarem-se para o chão. Perante isto eu a a Mónica íamos tirando fotos da paisagem à volta enquanto à frente a conversa durava. Para azar do Moses, aproxima-se um carro e ele tem de vir a correr fazer marcha atrás para ele passar. Nervoso, ele recua, eles passam e ele volta a atravessar o carro e sai disparado a pedir mil desculpas às autoridades e a continuar a conversa e nós a tirar fotos. Uns segundos depois aproxima-se outro carro. A mesma cena. Ele vem nervoso, recua, deixa passar a viatura e atravessa o carro na estrada outra vez antes de sair disparado para junto dos guardas. E nós continuamos a tirar fotos. Entretanto chega outro carro. A mesma cena. Não havia maneira de o Moses endireitar o carro. Deve ter sido o medo da autoridade que lhe queimou os neurónios. E andamos naquele, para traz e para a frente, umas 5 ou 6 vezes até não conseguirmos parar de rir perante um Moses mortificado e a morrer de medo da autoridade. A determinada altura ele entra no carro e sussurra para nós, como se tivesse medo que nos ouvissem, que os guardas o querem multar por ter saído da estrada, pois é proibido. “Isso não é nada connosco Moses! Vocês entendam-se!” e ele lá foi encolhido implorar perdão… bem, é uma cena ridícula que me dá voltas ao estômago, a subserviência e o medo perante quem as pessoas pensam que tem poder. Pelos vistos os guardas disseram-lhe que da próxima tinha de pagar a multa e seguiram. E nós seguimos também que já não podíamos ver elefantes e gazelas à nossa frente.

Note-se que estávamos a caminho do lodge e que a ideia era chegar lá para nos instalarmos, almoçarmos e regressar ao safari, mais tarde, com menos calor. E tínhamos combinado chegar lá por volta da 1h da tarde. Esquecemo-nos do tempo africano. Bolas! Eu já devia saber… Fomos vendo a paisagem e os animais e íamos apreciando tudo mas estávamos cansadas e cheias de fome, com o corpo dorido de andar de carro em picadas desde as 6h da manhã e o Lodge parecia uma miragem que não aparecia mais. Começo a reclamar, a perguntar onde ficava o raio da coisa. “Estamos quase” era sempre a resposta, entre-cortada por gargalhadas nervosas, que me deram cabo dos nervos a mim ao longo dos dois dias. Pelas 4h da tarde chegamos à entrada perto do Lodge e eu, já sem energia e a morrer de fome e cansaço lá fui tirar os bilhetes. “Lamento muito, mas esta senhora, sem passaporte não pode pagar como residente!” Deu-me uma coisinha má e fiz um escândalo. Na verdade eu só queria ir comer e dormir e aquela gente estava a criar-me mais problemas. Os outros senhores disseram que pagamos dois bilhetes de residente, porque é que estes não aceitam a mentirinha. E o pior é que se íamos ter de meter gasolina eu não ia ter dinheiro que chegasse se pagasse o bilhete dela como turista. Foi uma vergonha. Fiz o papel da mzungu doida, aos gritos, prepotente e a chamar nomes feios às pessoas. Resultou. É aquela coisa da autoridade. No fim estavam todos a olhar para mim encolhidos, a dizer para ter calma e a dizer que , tudo bem, me cobravam os dois bilhetes de residente. Eu estava tão tresloucada que nem os ouvia e continuava a gritar até o Moses me pegar no braço e dizer que eles tinham aceitado, para eu me acalmar e sairmos dali. Saímos (mas acho que mais um bocadinho e eu tinha entrado de borla).

Pouco tempo depois chegamos ao lodge onde fomos recebidas decentemente, por um staff profissional e simpático, que nos providenciaram almoço imediatamente e que nos fizeram sentir no paraíso. Cansadas como estávamos, nem pensar em voltar a sair para andar mais quilómetros a ver animais. Só queríamos comer, descansar e acalmar os nervos a ver se no dia seguinte a coisa corria melhor. Antes de almoçar viemos ca fora dizer ao Moses que tinha o resto do dia livre e para aproveitar também ele para descansar. “Mas onde é que eu vou dormir?”. “O patrão não te reservou alojamento?”. “Não, vocês têm de pagar um quarto para mim.” A minha cabeça já não aguentava mais. Disse-lhe para se entender com o patrão que eu tinha pago um safari integral com tudo incluído, virei costas e fui almoçar.

A seguir ao almoço fomos para os nossos aposentos. Uma tenda catita, com muito bom aspecto, no meio de um jardim africano bem cuidado rodeado por mato e vida selvagem. Ao ver o alojamento a minha irmã ficou sem palavras e a primeira coisa que diz é “Eu não fico aqui!”. Tendo em conta o cansaço, a frustração de um safari que queria especial se ter tornado numa anedota e o facto de estarmos a umas 6h de casa, não foi propriamente a coisa mais agradável de ouvir. Sentei-me, olhei para ela e perguntei-lhe calmamente para onde é que ela queria ir. O problema era a possibilidade de haver bichos, de lá entrarem aranhas, cobras, baratas… sei lá… coisas difíceis de ver no meio da savana africana: Que dia! Depois de inspeccionarmos toda a tenda e verificarmos que não haviam outros hóspedes além de nós e depois de tomar-mos banho, dormirmos,  jantarmos e voltarmos a dormir, as coisas compuseram-se e no dia seguinte acordamos cheias de vontade de voltar à estrada, bem humoradas e decididas a começar do zero com o Moses, que era um bocadinho atrapalhado, mas que não tinha culpa nenhuma das trafulhices do patrão.

O clima de paz e amor durou cerca de 2 horas e depois as coisas foram de mal a pior.

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