CULTIVAR VS ACEITAR A DIFERENÇA


Ultimamente tenho pensado bastante nesta questão e a aceitação da diferença, em vez do cultivo da diferença, parece-me cada vez mais uma atitude perigosa, paternalista e que pouco contribui para a construção de uma verdadeira sociedade intercultural global. A aceitação da diferença é um valor importante da cultura ocidental e, sobretudo Europeia onde apesar de haver resistências e intolerâncias, se verifica não só a valorização da diferença per si, mas também a sua valorização em termos de mais valia, nomeadamente na construção do espaço Europeu. E eu sempre achei isto tudo muito bem, muito nobre e muito produtivo, até ao dia em que saí da minha zona de segurança, onde faço parte da maioria e partilho os meus valores e referências e passei a ser a pessoa estranha e diferente para os outros. E aí aceitar as diferenças deixou de ser suficiente para mim, pois não muda nada, não acrescenta nada, é estéril.
Tudo isto torna-se ainda mais preocupante quando os profissionais do Desenvolvimento, caem no ciclo vicioso das concessões culturais, fazendo de conta que são iguais e que tudo partilham e aceitam, em nome de um acesso mais fácil às pessoas e comunidades com quem querem trabalhar. Para além de ser uma atitude de desonestidade para com eles próprios, é uma atitude de profundo desrespeito pelos outros, de paternalismo fácil que parte do princípio que a cultura ocidental, ao contrário das outras, é magnânima e tudo integra a bem da sagrada estabilidade sem conflitos. O argumento recorrente é que para conseguir trabalhar com populações isoladas, sem acesso a TV e informação sobre outras formas de ser, de estar e de viver, é preciso aceitar as diferenças e fazer concessões para evitar o temido choque cultural com o qual, supostamente estas pessoas são incapazes de lidar. É impressão minha ou quem diz isto está a perder uma belíssima oportunidade de expor estas populações à diferença que eles próprios representam, perdendo assim a oportunidade de partilhar outros mundos e outros valores e de cultivar a diferença? E é claro que é difícil, que demora mais tempo a ganhar a confiança das pessoas, a conquistar o nosso espaço e a ter margem de manobra. Mas não é impossível. E se abraçarmos o desafio de cultivar a diferença, isso não significa que esteja sempre tudo bem, que na mútua descoberta encontremos sempre pontes, compreensão e diálogo. Nada disso. Não é simples e não há fórmulas mágicas para lidar com as diferenças, mas na partilha reside o respeito pelas mútuas particularidades e isso eu acho que é fundamental.
Apesar de já ter passado por outros países em África e por outros lugares do mundo nada me preparou para o desafio que o Quénia representa para a minha capacidade de lidar com as diferenças. Nunca, nenhum outro lugar colocou tão em causa os meus valores e a minha forma de ver o mundo. Vivo em permanente choque cultural há quase um ano e rapidamente descobri que aceitar simplesmente as diferenças dos outros e tentar passar despercebida não me ajudava em nada, não mudava nada, era uma atitude estéril. Faço muito poucas concessões. Não escondo de ninguém o que sou, o que sinto e o que penso. E sabem que mais? Funciona! Funciona porque as pessoas não são estúpidas por serem pobres, por viverem isoladas e por não estarem expostas à diferença.
Mas deixem-me dar-vos um exemplo. A religião. O Quénia é o país que eu conheço onde a religião é mais presente no dia a dia das pessoas e onde o fundamentalismo e o fanatismo religioso tem mais ovelhas para os seus rebanhos. Para além disso é uma questão colectiva e praticada em praça pública. Os vizinhos anotam quem vai ou não à missa, em qualquer esquina ou canto de jardim nos deparamos com pregadores, armados de amplificadores a tentar doutrinar as massas e rodeados de público atento, a vida da maior parte das pessoas é pautada por uma inércia doentia que tem origem na crença de que deus tudo resolve e tudo providência. O creacionismo é uma crença comum, mesmo nas universidades e a teoria da evolução não é ensinada nas escolas. Todos os momentos quotidianos são pautados por orações colectivas. E alguém sem religião é, simplesmente, considerada amoral. Ora eu consigo aceitar, num patamar intelectual, que a religião seja importante na vida das pessoas, que as conforte e as enquadre socialmente. O que não sou capaz de aceitar é que um indivíduo desonesto, alcoólico, preguiçoso, que bate na mulher e nos filhos e que vai à missa seja considerado um cidadão modelo, enquanto que outro indivíduo honesto e honrado mas sem religião seja visto com desconfiança e não seja considerado uma pessoa de bem. E aqui eu tenho um papel a desempenhar se assumir a minha diferença e expor aos outros o meu mundo e os meus valores. Eu não fico de olhos fechados e cabeça baixa de cada vez que há uma oração colectiva (às refeições, em reuniões, formações etc.) e continuo a fazer o que estava a fazer ou simples retiro-me respeitosamente e regresso quando tudo terminou. No início as pessoas falam baixinho entre si e olham desconfiadas, mas depois há sempre alguém mais corajoso que se aproxima e questiona a minha atitude e aí, abre-se uma janela de oportunidade fantástica para a partilha da diferença e respeito mútuo, num patamar de igualdade entre os indivíduos. E depois, com o tempo, o convívio e a partilha, chegam habitualmente à conclusão “ela não é religiosa mas é boa pessoa” e aí, nessa fase, temos espaço para trabalhar e cultivar a diferença. E entretanto, descobrimos novos mundos juntos. É claro que eu gostava que as pessoas desenvolvessem espírito crítico, ganhassem autonomia e deixassem de ser dominadas pela religião, é assim que eu penso. E é claro que a maior parte gostava de me transformar numa ovelha do rebanho. Mas o que está em causa não é conquistar o outro para o nosso lado, ainda que trabalhemos nesse sentido, é simplesmente cultivar as diferenças e mostrar que o mundo é diverso e os indivíduos singulares e que isso não representa problema nenhum.

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4 Respostas

  1. Sábias palavras, minha querida. Continuo a deliciar-me com as tuas histórias e espero que tudo isto possa ser testemunhado em formato de documentário em breve. 🙂

  2. Devias escrever um livro! :p

  3. Olá Gabriela, pelos vistos ainda por aí andas.
    Gosto muito do teu blog.

    Só nos vimos uma vez e simpatizei logo contigo.

    Boa sorte por aí e continua a contar histórias.

    Beijinhos

  4. Olá Gabriela, também me delicio com as tuas histórias. Acho-as fantásticas!!!
    Continua rapariga 🙂
    bjs do tamanho do mundo

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