MZALENDO, O PATRIOTA


Quantas vezes nos perguntamos sobre o que podemos fazer para tornar as nossas sociedades mais justas e os nossos governos mais transparentes enquanto cidadãos comuns? Apenas para, na maioria das vezes, nos acomodarmos à frustração de não podermos fazer nada, ao sentimento de inferioridade de quem acha que não tem poder nem voz. É assim em Portugal. É assim quando os níveis de abstenção eleitoral são elevados, é assim quando não exigimos os nossos direitos e manifestamos os nossos descontentamentos, é assim quando os movimentos sociais são pobres e é assim quando confundimos política com partidarismo e nos demitimos daquele que eu acho que é o nosso primeiro dever e direito enquanto cidadãos: participar activamente na sociedade, a nível local e global. Mas é assim em muitos lugares. Chamam-lhe crise democrática, alienação social… enfim, é um sintoma grave de um mundo em agonia.
Mas em muitos lugares do mundo a situação é ainda mais grave do que em Portugal, muito mais grave. Muitas democracias são artificias. outras tantas são jovens, outras ainda de democracia só têm o nome. Em muitos lugares falta consciência democrática, conhecimentos e instrumentos de participação social e de supervisão do Estado e falta sobretudo um certo nível de bem-estar social que permita às pessoas serem cidadãos de pleno direito. Não tenhamos ilusões. Enquanto a primeira preocupação do indivíduo for a sobrevivência até ao dia seguinte, seja por falta de comida, de água, de segurança, não podemos esperar que ele seja activo na defesa e no desenvolvimento dos seus concidadãos. E em muitos lugares este é o quotidiano da maior parte da população e a democracia apenas uma palavra estrangeira, imposta por estrangeiros para satisfação de alguns estrangeiros.
Apesar de tudo, de vez em quando, o solo mais árido pode produzir milagres, como as rosas efémeras do deserto de Atacama, da mesma forma que nas sociedades mais improváveis podem surgir fenómenos sociais extraordinários e inspiradores.
O Quénia não é um exemplo de estabilidade e maturidade democrática e enfrenta os mesmos problemas de muitos outros países no mundo onde a democracia não foi conquistada pelo povo mas imposta pela comunidade internacional e onde a maior parte da população se preocupa mais com a sobrevivência quotidiana do que com a participação social. Também não é um exemplo de transparência e responsabilidade governativa. Mas foi aqui que nasceu, contra todas as probabilidades, o MZALENDO: Eye on Kenyan Parliament e o MARS Group Kenya, dois sites que têm por objectivo supervisionar e responsabilizar o Estado. Curiosamente, mzalendo, significa “patriota” em Swahili e, de facto, haverá maior acto de patriotismo (seja o nosso conceito patriótico associado a fronteiras, línguas, religiões ou pertença comum à humanidade) do que monitorizar, denunciar, comentar e participar para cuidar da nossa sociedade?


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