AMIGOS DO LAGO VITÓRIA


O Lago Vitória, com mais de 68 000 km2 é o maior lago africano, o maior lago tropical do mundo e é partilhado por três países: o Uganda, a Tanzânia e o Quénia. É uma fonte de vida incomparável na região, fundamental mas não infinita. Mais de 30 milhões de pessoas dependem dele para viver e muitas culturas e tradições estão a ele associadas. Infelizmente, como acontece um pouco por todo o mundo, os problemas ambientais que enfrenta são muitos e o lago está a morrer lentamente. Mas há também cada vez mais organizações envolvidas na protecção do Lago Vitória, com uma dinâmica impressionante. No Quénia, tenho a oportunidade de acompanhar de perto uma delas, a OSIENALA, onde alguns amigos trabalham e tenho aprendido imenso sobre preservação, sustentabilidade e educação ambiental. É um mundo novo para mim mas é um mundo cheio de esperança.

O grande lago sofre de vários males. Os mais óbvios talvez sejam a pesca excessiva (sobretudo a pesca desregulamentada com recurso a redes demasiado apertadas que capturam peixes em crescimento) e a poluição de origem agro-química e falta de saneamento, tão visível na cidade de Kisumu onde a água é negra e densa. No entanto, há mais ameaças. O lago está infestado por jacintos de água que são alimentados basicamente pelos nitratos usados nos fertilizantes e muitas vezes quando olho para ele parece mais um enorme pasto verde do que um manto de água. O jacinto de água tal como a perca do Nilo são espécies exógenas, introduzidas no lago e que afectam seriamente todo o equilíbrio do ecossistema. Outra ameaça muito séria está relacionada com a destruição e/ou apropriação das zonas húmidas para o cultivo do arroz, uma vez que são estas terras que servem de filtro para o lago. E assiste-se também a um conflito recorrente entre seres humanos e a vida selvagem que culminam no abate de muitos hipopótamos e outras espécies. E a degradação do lago não é alheia às mudanças climáticas, com o nível da água a baixar devido à escassez de chuvas, a malária a aumentar (esta é uma das zonas com maior incidência de malária), intercalando com períodos de cheia que vitimam milhares de pessoas na região. O cenário é negro, a degradação visível a olho nú e o futuro preocupante.

O que eu não esperava, até porque a sociedade civil no Quénia parece-me pouco activa, era encontrar tantos projectos, tantas organizações e tanta dinâmica na região, com protagonistas locais que se fazem ouvir bem longe, a tentar contrariar esta história banal. A OSIENALA, que eu conheço melhor, é disso um excelente exemplo. Lá trabalham mais de 50 pessoas, na maioria jovens, quase todos formados e especializados, assim como vários voluntários, quase todos estudantes, mas que partilham a mesma paixão pela sua terra, indissociável do lago Vitória. Entre todos desenvolvem diversas actividades que incluem a emissão da Radio Lake Vitoria com mais de 3 milhões de ouvintes, que aborda especialmente questões ligadas à sustentabilidade ambiental e à região e que emite também a partir da internet, vários programas de educação ambiental para vários tipos de públicos, programas comunitários para a gestão ambiental e de recursos do lago Vitória em rede e articulados com organizações congéneres no Uganda, na Tanzania, no Burundi e no Ruanda e ainda a promoção de latrinas ecológicas, de campanhas para prevenir o HIV/SIDA, de projectos de reabilitação da paisagem, micro-crédito e empreendedorismo, investigação e consultoria.

A própria OSIENALA que conta com vários doadores e tem uma dimensão apreciável, financia associações e grupos de jovens mais pequenos que desenvolvem projectos de cariz mais local, em toda a região. Um projecto que considero particularmente interessante é, por exemplo, o desenvolvimento da aquacultura como forma de combate à excessiva exploração de recursos piscatórios no lago, com tanques experimentais nas instalações da própria organização e com a criação de infra-estruturas na comunidade e com a comunidade para este tipo de actividade. O eco-turismo e o artesanato (com potencial para vir a obter uma futura certificação de produto do Comércio justo) são outras actividades complementares que tentam dar nova vida ao lago e aos seus habitantes.

E fazem-se ouvir longe e onde é preciso, com representantes em reuniões como a que serviu para preparar a participação do Quénia na Cimeira de Copenhaga e em outras estruturas governamentais onde têm uma forte actividade de advocacy.

As organizações como a OSIENALA e os jovens que as integram são uma luz de esperança e uma força de mudança poderosa, assim como uma fonte de inspiração para todos aqueles que querem mudar o mundo e torná-lo num lugar melhor para todos. Bem hajam!

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2 Respostas

  1. Tenho uma admiração enorme pelas pessoas que andam pelo mundo a dedicar-se a causas como estas (e outras). Espero que todos os esforços tenham grandes resultados e, neste caso em concreto, que se consiga a médio-prazo recuperar esse belo e mítico lago. Bom artigo!

  2. Também gostei do artigo e concordo plenamente…é de se tirar o chapéu a uma organização como essa que tem um impacto tão grande na comunidade…deveria haver mais assim, mas já é um princípio e talvez um estímulo para outras se envolverem tão activamente!

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