AFINAL NÃO ERA UM ROCHEDO COM BARRACOS


Eu tinha contado a alguns amigos que ia passar o ano algures numa ilha do Lago Vitória e que não sabia mais nada sobre o lugar ou o programa de festas e que para mim até um rochedo com barracos no meio do lago estava bem, pois pelo menos era uma novidade e cheia de imprevistos.
Na noite anterior dormi em casa das duas amigas alemãs que conhecia e que me convidaram e às 6h da manhã lá chegou o resto do pelotão com viaturas e mantimentos para ficarmos isolados na tal ilha até domingo. Ainda sem cumprimentos e apresentações que os alemães e eu estávamos em modo de recuperação do sistema, lá nos fizemos à estrada acompanhados por um nascer do Sol deslumbrante. Não sei se sabem, mas apenas 6% do Lago Vitória se encontra em águas territoriais do Quénia, confinado a uma baía extensa e pontuado por algumas ilhas antes de se abrir para abraçar a Tanzânia e o Uganda e se perder no horizonte e foi aí que eu fui parar, finalmente e sem contar, àquela parte onde a água cresce e parece mar.
Contornamos a baía de jipe até ao Ferry, depois de Bondo, e atravessamos para Mbita, no extremo Sul da baía. Aí, apanhamos outro barco, agora mais pequeno, deixamos o carro para trás e fizemo-nos ao lago e durante mais de uma hora fomos contornando ilhas até que no extremo, quando já só se via água e céu no horizonte contornamos a ilha à nossa esquerda e o que vimos deixou-nos boquiabertos. Takawiri, a nossa ilha, é um pequeno reduto de pescadores, verde e montanhosa, mas ao virarmos deparámo-nos com um braço de areia branca e palmeiras, emoldurado pelas montanhas a formar uma baía de água calma e transparente. Chegamos ao nosso destino e até podíamos muito bem ter dormido ao relento, cozinhado com fogueiras e tomado banho no lago, mas nem isso; à nossa espera estava um delicioso resort turístico, fechado hà um ano, propriedade da família de um indiano, namorado de uma das meninas alemãs e nosso anfitrião e todinho, todinho só para nós durante quatro dias.
Desembarcamos boquiabertos e alguns só diziam “Eu nunca estive num lugar assim!” (um à parte rápido apenas para explicar que o grupo de alemães era composto por 10 voluntários, que integram várias organizações no Quénia e na Tanzânia, através de um programa do governo alemão, com idades entre os 19 e os 27 anos e para além deles só havia o indiano e eu, os dois mais crescidos). O nosso anfitrião, ainda na praia resolveu fazer um “briefing” (tal e qual!) para nos dar as boas vindas, explicar como ia funcionar a coisa, organizar a escala de cozinheiros (havia empregados à nossa espera mas a cozinha era connosco) e para nos alertar relativamente à vasta colónia de cobras e escorpiões da ilha. Cobras tudo bem…. mas escorpiões!? Comecei a ver o filme: 3 noites sem dormir, o coração a bater estupidamente de cada vez que abro a porta do quarto, a inspecção à cama e o sobressalto a cada barulho mais estranho… sou medricas com a bicharada! Não tenho problema nenhum com animais de grande porte, mas os pequenos, na maioria das vezes dão-me conta dos nervos e agora ainda por cima tinha de encontrar um que nunca vi antes e que vivia na categoria dos mitos horrendos.
Matei o meu primeiro escorpião, no chão do chuveiro do meu quarto, às 19.00 do dia 31 de Dezembro de 2009, na ilha de Takawiri. A electricidade, solar, era muito fraquinha e eu já a pressentir o pior entro na casa de banho também de lanterna em punho a inspeccionar todos os recantos e lá estava ele, preto (descobri depois que também há brancos e que são mais venenosos e matei-os sem qualquer descriminação), grande, feio e com aquele rabo venenoso no ar. Morreu esborrachado pela minha havaina e foi pelo ralo abaixo. Como tudo na vida, a gente habitua-se e para o fim a coisa já não me impressionava e já nem pensava neles. Apareciam no meu horizonte visual, quinavam e eu continuava com a minha vidinha de banhos e sol e dança e muito rir.
A passagem do ano propriamente dita foi indescritível… eu vou tentar, mas eu sei que não vou chegar nem perto do que realmente aconteceu. Jantamos principescamente, tudo acompanhado por um belíssimo tinto chileno e no final, preparamos cocktails e fomos para a praia em frente, onde uma enorme fogueira rodeada de cadeiras esperava por nós. No céu a lua cheia brilhava e, sem uma única nuvem no horizonte enchia de luz a última noite do ano. Era como se fosse dia mas com a luz banca intensa a pratear o mar e a areia branca. Nunca tinha visto nada assim! Como se não bastasse, a ilha é um verdadeiro santuário de pássaros e a sinfonia é absolutamente fantástica, misturada com os outros músicos da noite como os sapos e os morcegos. Parecia uma noite mágica, encantada, irreal e nós, à volta da fogueira cantávamos canções de Natal, entrecaladas aqui e ali por algumas dos Beatles (não me perguntem porquê). Não sei muito bem quando chegou a meia noite. Ninguém tinha relógios, nem telemóveis (não havia rede na ilha), nem interesse nesses pormenores e por isso quando achamos que era boa altura brindamos ao Ano Novo com uma bebida de cor radioactiva, abraçamo-nos e desejamos um mundo de coisas boas uns aos outros e continuamos a celebrar o novo ano quase até ao amanhecer. Não conseguíamos sair da praia e por lá ficamos, ao Luar, a rir, a brincar, outras vezes em silencio a ouvir os pássaros e a olhar a paisagem e houve até quem fosse a banhos, que a noite estava quente e a água convidativa. Foi uma noite linda!
Os dias seguintes foram dias de preguiça, encantamento e boa disposição. Tivemos aulas de dança com especialistas em danças de salão, tivemos campeonatos de bilhar competitivos, tivemos até rabanadas nos trópicos numa das noites, dançamos as músicas mais pirosas das décadas de 80 e 90 e fizemos festas até de manhã, onde até os guardas e os empregados se juntavam a nós para dançar.
Depois de um início de ano assim, eu estou serenamente à espera para ver o que o resto do ano me reserva. E estou optimista!

P.S. Hoje a minha irmã faz anos e eu muito gostava de poder partilhar estas e outras experiências com ela… jà falta pouco :). Não te preocupes que eu trato de exterminar a bicharada antes de chegares. Parabéns e um beijinho enorme cheio de saudades!

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6 Respostas

  1. Bem…. q inveja me fazes!!!!E eu q passei o ano no Porto, com mt chuva, mt vento…. mas sem escorpiões!BjsAndreia

  2. :)) O meu comentário é um não comentário, porque não tenho palavras… Quantas pessoas sonham com coisas assim, e tu, nas últimas duas semanas, foram tantas as experiências e as gentes, que, pronto, restam-nos as imagens que nos escreves :)) Um óptimo ano novo para ti, minha querida! PS: claro que os escorpiões se tornaram um pormenor 😛

  3. obrigada maninha…ainda bem que te divertiste!em breve estarei aí…beijinhos!

  4. Que maravilha! Até os escorpiõezinhos estiveram na festa, mas com um fim diferente! Fez-me lembrar uma tirada dum fofinho nosso que à frente do perú de Natal dizia com ironia " e viveu tanto tempo para acabar assim".Continuação de boa saúde, boa disposição, muita riso e bom trabalho.

  5. Andreia,Tu não podes invejar-me LOL Não tu que estiveste na Patagónia e em muito mais lugares do mundo do que eu :)Fico feliz por te ver por aqui. Tem um bom ano com grandes viagens :)Beijinhos!ZimbieE não sabes da missa, a metade LOL que eu aqui só vou contando algumas histórias, mas depois é um não acabar mais de coisas quotidianas, enfim, para teres uma ideia lol: o condutor de tuk tuk que me leva ao trabalho todos os dias diz que ele e a família rezam todos os dias (desde que lhes ofereci a galinha para o natal)para eu encontrar um Luo "como o Obama" para casar e ficar por cá, a semana passada tivemos cá O Profeta e a cidade parecia uma espécie de Woodstock dos pobres e desgraçados à espera de milagres…. enfim minha linda…. tenho coleccionado poersonagens e eventos para escrever até ao fim dos meus dias :)Um beijinho grande e um ano feliz!NiCá te espero! Até breve.BeijinhosFernandaehehehehe obrigada e tudo de bom para vocês também!

  6. Pelo que leio, estiveste bem acompanhada e pelas fotos vejo que num local fantástico 🙂 Um bom ano para ti, linda e vê se regressas rápido, tá? fazes cá muita falta :-)****

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