CHRISTMAS TIME






A viagem

Se não dermos demasiada importância ao facto de ser quase impossível dormir com a trepidação e o ruído do comboio, de nos cruzarmos com uma barata aqui e ali e de sermos acordados e chamados para o restaurante com alguém a bater em textos, a viagem na mítica linha do Uganda que, ligando o Quénia a este país, foi em tempos uma das mais importantes do leste de África, pode ser absolutamente encantadora.
Sete horas da tarde, Nairobi-Mombasa, 1ª classe. Basta entrar na estação para sentirmos uma certa nostalgia colonial e basta pôr o pé no comboio para começar a viajar mesmo antes de ele partir. Os compartimentos são confortáveis, o serviço cheio de mordomias, a carruagem restaurante é encantadora e por todo o lado nos saltam aos olhos pormenores deliciosos da estética e dos hábitos de outros tempos.
A paisagem, essa, fica-nos para sempre na memória desde o bairro de lata de Kibera e a zona industrial à saída de Nairobi, às montanhas, à savana, ao parque nacional de Tsavo e à vida selvagem que passa diante dos nossos olhos, sem esquecer as aldeias, os mercados e as crianças que dizem adeus e correm atrás do comboio ao longo de todo o percurso.

Diani Beach

E lá se foi mais um dos meus preconceitos: Diani é um dos locais mais turísticos da costa e estamos na época alta e eu, apesar de entusiasmada com a possibilidade de sol e mar, esperava uma coisa tipo Quarteira em Agosto. Estava tola! A costa é suficientemente grande e diversificada para acolher toda a gente sem necessidade de congestionamentos. E o local escolhido para a estadia era perfeito, um oásis dito para “backpackers”, onde por menos de 10 euros por dia se pode usufruir do melhor que os trópicos nos podem oferecer. É um local com alma, onde nos sentimos quase em estado de graça por lá termos ido parar e que nos vicia. Stilts-Tree top houses, é o nome do paraíso.
A água é do mar, dessalinizada, a energia é solar, a construção minimalista com materiais locais e quase imperceptível. Os macacos e os bush babies são as nossas companhias constantes, os pássaros a música de fundo e as borboletas, enormes e coloridas a dar cor ao verde completam um quadro fantástico que só é superado, do outro lado da rua pelos tons das flores, do céu e do mar.

E foi assim que aconteceu

Era para ser um fim de semana prolongada na companhia de 2 amigas e aconteceu tudo de forma tão estranha que a estadia delas encolheu, a minha esticou e eu já mal me lembro de ter partilhado estes, que foram os melhores dias do meu ano, com elas.
Mas vamos ao princípio. Quarta-feira à noite partimos eu e a amiga da minha amiga, que não era minha amiga ainda (a minha amiga ia ter connosco apenas na sexta à noite). Desde que nos conhecemos na entrada da estação que ela me pareceu adoentada, mas só ao jantar é que tive confirmação das minhas suspeitas. A moça vinha da Zambia (onde viveu uns meses a participar num projecto de investigação) e sentia-se doente há uns quinze dias, mas não achou importante ir ao médico antes de ir de férias. Aos vinte e dois anos fazem-se coisas um bocado estúpidas. Acontece aos melhores. Mas bolas, não estamos em casa, o ambiente é hostil à nossa mzunguisse delicada, cheio de vírus, bactérias e parasitas estranhos e o mínimo que se pode fazer é ir ao médico mal nos sentimos doentes. Comecei a ver a minha vida a andar para trás quando durante a noite a febre começou a subir, a diarreia a agudizar e as dores de cabeça a aumentar.
Resumindo uma longa história: mal chegamos ao Stilts para o nosso check in perguntei ao Andy, o dono, pelo melhor hospital das redondezas, levei lá a menina e mal ela foi vista pelo médico foi internada. Eu assegurei-me que ela estava em boas mãos, levei-lhe a mochila e fui para a praia.
E estranhamente fiquei disponível para uma das minhas mais extraordinárias experiências humanas. Fiquei sozinha, num local desconhecido, cheio de gente. Devo dizer que o bar do Stilts é uma espécie de ponto de encontro de almas gémeas do mundo inteiro, onde se geram empatias instantâneas, sintonias improváveis e onde se constroem afectos. Deve ser o local do mundo com mais viajantes por metro quadrado, com mais gente que largou tudo e partiu um dia, sem destino, com mais gente que mudou de vida de forma radical e com mais gente disponível para os outros. Eu demorei 5 minutos a ultrapassar o meu inconfortável momento de solidão e a solidariedade demonstrada para com a minha amiga no hospital foi enternecedora. A coisa é de tal maneira que mais de metade das pessoas no Stilts, ou Stiltoers como lhes chama a Heidi, estava lá indefinidamente. Chegamos todos para ficar 2 ou 3 noites e depois vamos criando afectos, laços e vamos adiando a partida. O Adrian, que anda a viajar, sem parar quase há 3 anos está lá há meses e ainda não sabe quando parte, está à espera de “sentir” que é a hora. A Heidi e a Cecília, duas norueguesas a fazer voluntariado em Mafia, perto de Zanzibar, estavam lá há quase duas semanas e iam ficar até ao Natal, o Nathan, um professor americano de escrita criativa, não consegue sair de lá, nem decidir para onde ir a seguir e pelo menos até à passagem de ano vai ficando, a Nayma, uma francesa de origem marroquina que viaja incessantemente desde o século passado, parando de vez em quando para ganhar algum dinheiro e voltar a partir, também adiou a viagem e fizemos juntas o regresso a Nairobi, o próprio Andy, o dono e mentor do lugar que calcorreou meio mundo decidiu criar aquele oásis para viver livre e como gosta, as 3 primas quenianas (uma a viver nos EUA, outra na Holanda e outra na Islândia) que se reuniram no Stilts para celebrar a vida e matar saudades e foram ficando até ao Natal… e mais… muito mais gente a ir e a vir e a partilhar e a dar.
E depois, aquela sensação constante de que nada é por acaso, de que as pessoas se atraem e se cruzam com propósitos misteriosos que às vezes só desvendamos mais tarde, depois de dizer adeus.
E depois estar em África, no meio do mato, partilharmos Ipods e descobrirmos que temos quase todos o mesmo tipo de música. Na primeira noite adormeci a ouvir Jeff Buckley e Nina Simone e parecia um sonho, a música a vir do bar e a chegar até mim misturada com os barulhos do mato nocturno e nos dias seguintes, dar por mim a beber gin tónicos ou a jantar chapatis e green grams (por 1,50 euros) ou a dançar ao som de Beirut, Morrissey ou Radiohead, com macacos empoleirados no tecto e osgas em alerta. O paraíso só pode ser assim. E gostar tanto de estar juntos, todos desconhecidos, que nem o maravilhoso “40 Thieves” na praia nos convencia a abandonar o ninho nas noites quentes e suaves de Diani.
Mas nem tudo é perfeito, ou talvez seja, que a vida é feita de contrastes. A praia está cheia de beach boys, verdadeiros predadores de mzungu. Uns querem vender artesanato, outros querem propor negócios de safaris, de snorkeling e mergulho, outros querem apenas “engatar” uma mzungu e não nos deixam em paz. Se não lhes dermos asas vão embora e se ultrapassarmos a antipatia natural de quem vê constantemente o seu espaço invadido até podem ser bem divertidos. Recordo em particular aquela manhã, com a maré a baixar e eu, a Rea e a Nayma numa plataforma flutuante a apanhar banhos de sol, a rolar para a água e a voltar ao sol vezes sem conta. Chega o beach boy à beira da água, em calções e encaminha-se na nossa direcção. O paleio do costume “How are you beautiful lady?”, “Do you enjoy the sun? And Quenia?”… a cartilha Zézé Camarinha. Fartas de o aturar, a Rea, diz “Olha só falo contigo se for para negociar um treeking aos Shimba Hills amanhã.” O moço não tem mais nada saca de telemóvel, manda vir o “chefe” e a criatura aparece passado uns minutos à beira da água a acenar. Nós a preguiçar ao Sol, nem pensar em sair dali… se ele quiser fazer negócio que se faça á água e venha ter connosco. E foi a coisa mais insólita do mundo, eles de telemóveis e catálogos de fotografias e listas de preços a entrar mar adentro. Foram dias de muito Sol, muito mar e muitas, mas muitas gargalhadas.
A amiga da minha amiga acabou por ter alta na sexta a noite mas antecipou a partida e foram as duas embora no domingo ao almoço. Eu tentei dividir-me e passar algum tempo com elas na praia e apresentá-las a toda aquela gente extraordinária, mas elas ficaram muito pouco tempo. Eu adiei a viagem o mais que pude e ontem quando saí de lá com a Nayma fui até Mombasa com o coração apertado e à beira das lágrimas. Provavelmente nunca mais nos vamos ver.

Regresso acidentado
Cheguei de Mombasa a meio da manhã e impunha-se arranjar um bilhete de autocarro para Kisumu no mesmo dia. Para meu espanto os bilhetes estavam todos esgotados. É época de Natal e está tudo a viajar. Depois de muito esforço lá arranjei bilhete para um autocarro às 22h. A meio da tarde estava eu pacientemente a ler na sala de espera da central de autocarros quando me apercebo que o céu ficara negro como breu. A chuva começou a cair impiedosamente e o vento parecia que ia deitar abaixo árvores, casas e o que mais lhe aparecesse pela frente, incluindo os vidros da estação. Na sala de espera, as janelas começaram a bater violentamente e lá fora os relâmpagos sucediam-se sem parar. Comecei a reparar no ar de pânico das pessoas. Um rapaz à minha frente encolhia-se todos e tapava o ouvidos e as pessoas estavam agitadas e tensas. De repente um relâmpago poderoso, um estrondo enorme e lá fora fios eléctricos a faiscar no ar como fogo preso no S. João. E é então que acontece. O pânico. A multidão ensandecida de medo. Poucas coisas me assustam mais que uma multidão descontrolada e à minha volta em segundos só se ouviam gritos. Homens, mulheres e crianças, com as mãos na cabeça, a gritar e a correr sem direcção de um lado para o outro da sala, encolhidos, levando pela frente cadeiras, malas, caixas de galinhas (que por essa altura também cacarejavam assustadas) e eu, na ultima fila, encostada à parede, com a mão direita direita sobre a mochila e a esquerda a segurar as pernas em cima do banco para impedir que alguém caísse por cima de mim. O cheiro a queimado invadia a sala e quando a trovoada acalmou as pessoas começaram a serenar, mas só para entrarem em pânico outra vez quando o disjuntor disparou e ficou tudo às escuras. Eu não tenho medo da trovoada, mas ontem à tarde o meu coração disparou e as minhas mãos tremiam com medo daquelas centenas de pessoas em pânico. (A ideia de enfrentar 7h de viagem nocturna com aquela tempestade também não era agradável. Mas correu tudo bem e estou de volta ao Nyanza).

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7 Respostas

  1. 😀 Sinto-me como se tivesse acabado de ver um filme completo em alta velocidade, tantas são as imagens e as sensações que me ficaram na cabeça com as tuas descrições. 🙂 Que experiência fantástica que deve ter sido estar nesse ponto de encontro de almas viajantes! Lindo, lindo, lindo. 🙂

  2. natal em Africa hummmQue a dádiva da partilha seja a corrente do Ser, nesta época ou noutra altura do anoBom Natal

  3. SarinhaE na minha cabeça então… 🙂 a mim parece-me que vivi um ano em 6 dias. O costume por cá :)Mas foi maravilhoso mesmo!Beijinhos e saudadesDarkVioletObrigada pela visita e pelo comentário. Acredito nisso :)Bom Natal para ti também e volta sempre.

  4. Amei essas fotos, pela descrição correspondem inteiramente à realidade…pena o mau tempo…mas tu gostas de emoções fortes e certamente depois acabaste a rir desse contratempo!Beijinhos!

  5. Que maravilha,apesar de alguns contratempos. A foto onde estás mostra-te com um ar de felicidade!Bom Ano de 2010! Beijos dos portugas amigos

  6. óóóó, não há palavras! Que magnífica descrição, e o mau tempo no regresso e um ou outro contratempo são pormenores :)) Que experiência maravilhosa…

  7. boa descrição a da Sara, quando regressares vamos escrever guiões para filmes alternativos? um beijinho

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