NYANZA



Mudei-me! Depois de 10 meses com sede em Nairobi e visitas aos 3 cantos do Quénia (o canto Norte infelizmente ainda está por explorar)instalei-me em Kisumu, onde vou ficar nos próximos meses a fazer o estudo de caso para a tese. Já cá tinha estado antes, já tinha escrito antes sobre o lugar e a região, já sabia que gostava da cidade e das gentes que por cá vivem e da proximidade do Lago Vitóri,a mas esta mudança tem-me dado que pensar. Logo na viagem para cá, mais de 7h de autocarro, comecei a esquecer as coisas que mais me incomodam neste país e que em Nairobi se me colam à pele como o fumo negro dos carros e me ofuscam a visão do todo. Depois de atravessar o Rift Valley, as encostas pintadas de verde bebé pelos arbustos de chá, os campos ondulantes de cana de açúcar, tudo iluminado por um Sol quente, brilhante e maravilhoso e chegar a Kisumu ao pôr-do-Sol, toda a negatividade que este país frequentemente me inspira tinha ficado para trás. E não é só a cidade, é a região toda do Nyanza (que significa “lago”) que me encanta. Como é que explicamos o facto de nos sentirmos em casa num lugar e incomodados noutro? Não sei! Acho que é uma questão de química, como a atracção, ou o amor, se quisermos ser mais românticos. E depois há aquela conjugação de factores que faz com que a vida pareça cor-de-rosa: eu estou apaixonada pela região e ela parece que está apaixonada por mim e presenteia-me constantemente com surpresas maravilhosas, alimentando ainda mais a minha paixão. Quinze horas depois de chegar, uma amiga de uma amiga ofereceu-me a sua casa durante um mês, a vizinha da amiga da amiga, ofereceu-me a casa dela durante a primeira quinzena de Janeiro, o amigo do amigo de outra amiga levou-me a lugares fantásticos da cidade e depois a uma festa africana maravilhosa, que durou pela noite dentro, a dona da casa da festa aluga-me um quarto fantástico quando eu quiser, vários amigos da dona da casa que conheci na festa partilharam contactos, preocupam-se comigo, oferecem alegria, orientação e companhia e já temos aniversários, passeios madrugadores para ver pássaros, excursões no Nyanza e visitas a projectos sociais agendadas, os condutores de Tuk Tuk em vez de me explorarem fazem-me descontos por ser portuguesa, por ser simpática, por ter um nome bonito e até (disse-me um deles) por achar que eu lhe ia trazer muita sorte para o resto do dia de trabalho, na rua as pessoas falam comigo, são simpáticas, nos matatus há sempre conversa com uma ou várias pessoas, com muito sentido de humor e riso à mistura, as pessoas da organização com quem vou trabalhar abriram-me o coração, deram-me o seu tempo e deixam-me vasculhar todos os arquivos que possam imaginar e ficaram tão contentes por eu ter voltado para trabalhar com eles, como prometido, que me emocionou. E amanhã faço anos e tenho duas festas e depois é Natal e nem sei o que escolher…. e isto depois de passar 10 meses em Nairobi a sentir-me sozinha, inadaptada e cheia de saudades de casa. Digam lá se isto não é paixão!? O Nyanza apaixonado por mim e eu por ele. Por cá ficava mais 10 meses sem problema nenhum, a viver a paixão. E não pensem que são tudo rosas, que também não há coisas que me incomodam e assustam por cá, afinal foi aqui que aconteceu o pico de violência durante as últimas eleições. Foi aqui que assassinaram mais pessoas, que destruíram mais imóveis (o que é ainda bem visível) e onde a loucura e insanidade colectiva atingiu o auge. Eu não imagino como tal foi possível. Como é que esta gente boa e generosa, neste lugar encantador, chegou a tais extremos de desumanidade… mas dizem que o amor é cego.

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2 Respostas

  1. e assim só estimulas outra vez a minha vontade de voltar e fazer mais uma visitinha 🙂 A parte que a zona teve na violência pós-eleitoral é que leva a pensar na capacidade do ser humano em atingir níveis de maldade assustadoras, especialmente quando imbuido de ideologias de massa e de diferenças raciais… é terrível.. Mas não impede que aproveites essa nova paixão até ao tutano 🙂 Bom trabalho e belas vivências por aí!

  2. Essa coisa de uma pessoa se sentir em casa em lugares que mal conhece é realmente estranha, mas já me aconteceu também. Ainda bem que finalmente encontraste um lugar onde te sentes assim, aí no Quénia. 🙂 Tardou mas está a valer a pena! :)Já agora, essas fotos são lindas de morrer! 😀

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