DEFLORESTAÇÃO, SECA E FOME


No Quénia, para muitos o país dos safaris e do grande espectáculo da vida selvagem, a destruição da floresta Mau, ao longo dos últimos vinte anos, tem uma influência directa na diminuição da precipitação, na retenção de água e na alimentação de alguns dos mais importantes lagos e rios da região. A seca que atinge todo o país e a fome que afecta já cerca de 10 milhões de pessoas no Norte são a face mais visível e dramática de um ciclo complexo de irresponsabilidade política e corrupção cujas consequências ameaçam afectar profundamente a estabilidade económica e social, a segurança alimentar e a própria vida selvagem, que tem sido a imagem de marca do país.

Todos nós sentimos de alguma forma os efeitos das alterações climáticas e a discussão das soluções e consequências deste problemas entram-nos todos os dias pela porta adentro através da comunicação social. Sabemos que as estações do ano já não são o que eram, que as catástrofes naturais parecem ser cada vez mais frequentes, que em muitos lugares a água escasseia. No entanto, em muitos países, estas consequências ainda não afectam directamente a maioria da população e as alteração climáticas continuam de alguma forma num patamar abstracto pois continuamos a ter água nas torneiras, electricidade nas tomadas e comida no prato. Infelizmente, o mesmo não se passa em todo o mundo e em muitos lugares a seca, a fome e os conflitos armados são consequências directas da destruição ambiental e das alterações climáticas. O Quénia é, actualmente, um bom exemplo desta cadeia de situações extremas e um testemunho importante para melhor compreendermos a dimensão concreta deste problema.

A floresta Mau, cinco vezes maior que a província de Nairobi, a sudoeste das Terras Altas, tem uma das maiores taxas de precipitação do Quénia e constitui a maior zona de retenção de água do país. Aí nascem doze rios e a floresta alimenta mais de vinte e cinco cursos de água que por sua vez alimentam cinco lagos da região incluindo o Lago Nakuru, no centro do parque natural com o mesmo nome, um dos mais famosos do país, que acolhe anualmente milhares de flamingos em migração e é lar para muitos outros animais selvagens incluindo a maior população de rinocerontes brancos do Quénia, o Lago Naivasha, essencial para uma das principais actividades económicas da região, a produção de flores e o próprio Lago Vitória, o segundo maior lago de água doce do mundo, fundamental para a economia e o equilíbrio ambiental do Quénia, do Uganda e da Tanzânia.

Originalmente, a floresta era povoada pelo povo Ogiek, que eram fundamentalmente caçadores-recolectores e cujas actividades tinham um impacto muito reduzido no ecossistema.
No entanto, a partir de finais da década de oitenta e sobretudo durante os anos noventa, tudo mudou. A floresta Mau, com terras extremamente férteis, passou a ser encarada não como bem público, mas como um bem de interesse político e começou a ser uma prática comum a concessão de terrenos florestais em troca de favores políticos e para pagar serviços de vária ordem. Para além dos vários membros do parlamento que são grandes proprietários (ou foram e entretanto venderam os terrenos com lucros elevados), há inúmeros funcionários públicos que foram beneficiados com terrenos no Mau, como os antigos militares que constituíram a força de manutenção de Paz na Serra Leoa. O antigo presidente Daniel Arap Moi, por exemplo, é proprietário de uma das maiores plantações de chá do Quénia, em plena floresta.
Desde o início da ocupação sistemática do Mau até aos nossos dias, cerca de 40% da floresta foi destruída para dar lugar à actividade agrícola, que por sua vez recorre tradicionalmente a práticas ambientalmente insustentáveis, como o “cortar e queimar”, ou seja, abater árvores e queimar floresta para criar terrenos de cultivo que em poucos anos se esgotam perpetuando este ciclo de destruição. A redução significativa deste ecossistema originou por sua vez uma redução gradual dos níveis de precipitação que aqui são fundamentais para alimentar os inúmeros rios que levam a água a vários pontos da região. Em algumas regiões do país não chove há dois anos e as últimas épocas das chuvas têm registado níveis de precipitação bastante reduzidos. Talvez mais grave ainda do que a diminuição das chuvas é o facto de a destruição da floresta reduzir a capacidade de retenção de água do Mau, que sempre serviu de “central” natural de captação e distribuição de água. Portanto, para além de chover pouco, quando chove a água perde-se rapidamente.

Várias ONGDs e organizações ambientalistas, incluindo o famoso Green Belt Movement alertam há anos, em vão, para os perigos associados à destruição da floresta Mau. Outras tantas, mais recentemente, alertam para a situação grave de crise alimentar no Norte do país, mas ninguém estava sintonizado nesta frequência e a mensagem perdeu-se. O Norte do Quénia é uma espécie de Terra de Ninguém. É terra de refugiados provenientes dos vários conflitos armados nos países vizinhos (a Somália, a Etiópia, o Sudão), de tráfico de armas e circulação de mercenários e bandidos. É uma terra sem lei, para onde não é possível viajar sem “security permit”, sem escolta armada, onde as estradas pavimentadas são praticamente inexistentes e para onde não circulam transportes públicos. As populações locais, isoladas, estão entregues a si próprias e ao apoio intermitente e difícil de algumas organizações internacionais. Mas quando a seca começou a afectar as principais regiões agrícolas do país, quando os rios começaram a secar, o nível dos lagos e das barragens a baixar e sobretudo, quando a água e a electricidade começaram a ser racionados em Nairobi, o problema passou a ser encarado com seriedade. Tarde de mais, infelizmente, para os cerca de 10 milhões de pessoas que precisam de assistência alimentar para sobreviver. Há muitos anos que não se assistia na televisão a imagens recorrentes de seres humanos esqueléticos a morrer de fome. Mas da mesma forma que o Norte é Terra de Ninguém no Quénia, o Quénia é Terra de Ninguém para o resto mundo e para comunicação social internacional.

No dia 6 de Agosto o City Council de Nairobi iniciou o racionamento de água e electricidade na cidade (que se estende a todo o país, em vários casos de forma mais severa). Nas zonas residenciais a electricidade é suspensa entre as 6h da manhã e as 6h da tarde 3 dias por semana, mas nos bairros de lata, como em Kibera, onde só aí vivem mais de 500 mil pessoas, só há água um dia por semana e quase nunca há electricidade. A conta atribuída aos mais pobres na factura da Seca é muito mais elevada, aumentando os riscos de epidemias de cólera e outras associadas à falta de higiene que só contribuirão para agravar ainda mais o problema. Além do mais, muitos pequenos comerciantes estão a ser afectados pelo racionamento, obrigados a fechar os seus negócios e a despedir empregados. Mas nem só os seres humanos estão a sofrer com a falta de água. Em alguns Parques Naturais o Kenya Wildlife Service tem de fornecer água aos animais, uma vez que os seus pontos de água secaram, e em alguns casos, tem mesmo de transferir alguns animais em perigo, como é o caso dos hipopótamos em locais onde os seus lagos baixaram drasticamente expondo os animais ao Sol. Os pastores também têm sofrido violentamente os efeitos da seca e nem mesmo medidas de última hora do governo, como a compra de animais em risco, para abate e utilização da carne, tem resultado. Alguns pastores Masai, por exemplo, perderam centenas de cabeças de gado e é comum hoje em dia encontrar animais mortos na berma das estradas, como a caminho do Parque Nacional de Amboseli, um dos mais famosos do país, voltado para o Kilimanjaro.

A escalada de problemas expostos pela comunicação social e de debates sobre o problema da seca, da fome e da necessidade urgente de reflorestação da floresta Mau tem sido impressionante. As etnias que se dedicam tradicionalmente à pastorícia, com o gado a morrer por falta de pasto começam a invadir terrenos agrícolas de outros grupos tradicionalmente agricultores e o rastilho dos tão temidos conflitos étnicos pode acender-se a qualquer momento. O conflitos são já muitos, a água é defendida com armas, a comida também. O governo decidiu responder à crise com a expulsão de todos os agricultores da floresta Mau para que se possa proceder à reflorestação. O antigo presidente, voltou à vida pública para dizer que a culpa não é dele, que não fez nada ilegal e que tudo não passa de uma campanha contra ele e o seu antigo governo. O caos está instalado. A única boa notícia, é que pelo menos aqui, agora, o tema está a ser discutido por todos e em todo o lado e a sensibilização para a protecção ambiental está a crescer. O maior perigo, é que tal como acontece com o racionamento de água e de luz, a maior conta desta factura seja paga pelos mais pobres e desprotegidos. A reflorestação do Mau é essencial, mas este processo não pode cair no mesmo padrão de irresponsabilidade social e má gestão que caracterizou a destruição da floresta. As várias campanhas de reflorestação que surgem todos os dias precisam de planeamento. Não basta ir para a floresta plantar árvores, lavar as mãos e vir embora. Os habitantes do Mau, na sua grande maioria não ocuparam ilegalmente as terras onde vivem, compraram-nas ou receberam-nas de alguém e têm títulos de propriedade e precisam ser indemnizados e tratados também com justiça para recomeçarem as suas vidas em outros locais. Os pequenos agricultores, que são a grande maioria, cerca de 15 000 pessoas, não podem simplesmente ser expulsos das terras onde vivem e servir de bode expiatório para o problema da destruição do Mau, quando foram apenas actores de uma peça dramática escrita por maus gestores e maus políticos.

Apesar dos efeitos dramáticos da destruição da floresta Mau, que afectam o quotidiano de todos os quenianos neste momento, esta pode ser uma oportunidade excelente para criar maior consciência na população relativamente à necessidade de protecção do ambiente e nomeadamente da preservação de florestas, para introduzir campanhas educativas que permitam aos pequenos agricultores aprender formas de cultivo mais sustentáveis e para planear a reflorestação e a gestão de recursos ambientais. Resta saber se os actuais políticos são melhores que os anteriores, mais responsáveis e melhores gestores e se vão aproveitar ou não esta oportunidade.

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2 Respostas

  1. Esperemos bem que sim, minha querida. Caso contrário, a situação vai tornar-se insustentável muito mais depressa do que se julga.

  2. Que depoimento tão realista! Gostei imenso e obriga a reflectir sobre o que andamos a fazer neste planeta. Mais grave ainda é o que vamos deixar para as gerações vindouras. Tudo de bom incluindo as experiências tão diversas! Até breve, muito breve.Um beijinho e boas viagens

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