AS MUDANÇAS À MINHA PORTA


Ultimamente parece que o mundo está a mudar a uma velocidade alucinante, à frente dos meus olhos, enquanto eu estou sossegadamente sentada no meu sofá, como se estivesse a ver um filme em modo acelerado.
Uma grande parte das coisas que tenho lido e aprendido sobre as mudanças climáticas, a pressão demográfica e o desenvolvimento parece que teimam ultimamente em sair dos livros e materializar-se aqui. Em alguns casos é fascinante, noutros é assustador, mas em ambos os casos fico com a sensação de viver num laboratório.
Por exemplo, apesar de as mudanças climáticas serem evidentes em todo o mundo e de termos acesso a informação sobre o que se se passa por todo o lado, nesta região de África começam a sentir-se consequências ambientais, económicas e sociais que ainda não se sentem na Europa, pelo menos de forma tão óbvia. No corno de África e na região dos grandes lagos, o aquecimento global traduz-se numa enorme redução da precipitação anual, que se tem vindo a sentir há alguns anos e que agora resulta numa seca intensa. A seca origina perda de colheitas, redução do caudal dos rios, baixa do nível dos lagos ou mesmo desaparecimento de alguns e isso põe em perigo o equilíbrio dos ecossistemas, a segurança alimentar, a biodiversidade e a paz social. Agora que a seca também se sente intensamente na capital, onde a electricidade é racionada e a água também, multiplicam-se as notícias sobre o impacto económico daí resultante (com negócios e empresas afectados e aumento do desemprego) e outros, que me pareciam ainda mais distantes como o facto de numa região de forte implementação da pastorícia, a perda de pasto levar os pastores a invadir terrenos agrícolas para alimentar os animais. Ora sendo a divisão das actividades laborais muito marcada etnicamente (entre pastores e agricultores) estas tensões sociais podem acender o rastilho do sempre latente conflito étnico.
A fome é um facto em muitas regiões do Quénia e nos países vizinhos. As lutas internacionais, regionais e étnicas pelo acesso e domínio da água também. As novas doenças e epidemias, como a gripe suína já chegaram e atingiram crianças de uma escola primária isolada, sem ninguém perceber como. Por entre um não acabar mais de problemas e consequências nefastas, multiplicam-se também os esforços para os solucionar e atenuar. O governo do Quénia criou um programa de emergência para apoio alimentar às regiões mais afectadas e isoladas, com a ajuda dos militares. A Cruz Vermelha do Quénia e outras organizações locais fazem recolha de alimentos nos supermercados e apelam à solidariedade nacional. Apesar de todas as organizações internacionais e do Apoio do Programa Alimentar Mundial (muito insuficiente) é bom ver os quenianos a tentar resolver os seus problemas.
A reflorestação e protecção dos ecossistemas está na boca do mundo, é tema de conversas de café e título de todos os jornais. O Presidente resolveu ontem promulgar a prisão imediata de todos os “settlers” da floresta Mau que não abandonem os seus terrenos (há um esquema de compensação para quem provar a propriedade das terras), mesmo sabendo que muitos são familiares e amigos de Membros do Parlamento e de gente muito importante. Claro que a transição para a reflorestação da floresta deveria ter sido feita com tempo e ter uma forte componente educacional (os agricultores habituados à técnica do “cortar e queimar” floresta para cultivar vão continuar a faze-lo noutro lugar) mas de alguma forma está a ser feita e isso já é positivo.
E num contexto de profunda injustiça social e económica onde a consciência social e de cidadania quase não existe, onde as pessoas fazem muito pouco para se defender a si próprias e parecem preferir esperar pela intervenção divina, foi lindo, ontem ligar a televisão e ouvir centenas de trabalhadores da Kenya Airways, a horas de iniciarem uma greve nacional depois de falhadas as negociações do sindicato com a companhia, a cantar “the people united cannot be defeated”.
O Quénia é um belo lugar para assistir de camarote ao bom e ao mau dos nossos tempos. É como ver o mundo a mudar mesmo à minha porta.

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Uma resposta

  1. Minha querida, infelizmente só quando for tarde demais é que muita gente vai abrir os olhos para o estado em que está este planeta. E é muito importante aquilo que dizes, sobre as "consequências ambientais, económicas e sociais que ainda não se sentem na Europa, pelo menos de forma tão óbvia". E quem diz Europa, diz Estados Unidos, também. A ecologia é muito mais do que "abraçar árvores" :), e a forma como tudo está interligado deveria obrigar-nos a todos a ter uma consciência mais planetária, mais alargada, em vez de olharmos apenas para o nosso cantinho. E isto é válido para tudo, desde o clima à economia… Pequenos focos de mudança é aquilo que me faz ainda ter alguma esperança. 🙂

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