VOLTA AO QUÉNIA EM 3 SEMANAS III


MALINDI

É preciso dizer que a nossa viagem pela costa sofreu várias alterações desde o início. Primeiro era suposto ser a última paragem e acabou por ser a primeira e em segundo lugar tínhamos decido ir para Watamu, a seguir a Mombasa, com a certeza de aí encontrar uma bela praia tropical, muito sol e sossego, longe dos lugares mais dedicados ao turismo de massas como Diani ou Malindi. Acontece que ainda em Mombasa tivemos a oportunidade, um dia, de um passeio até Malindi com alguns amigos e aproveitamos para passar por Watamu, para ver se o hotel que tínhamos escolhido era simpático. Só aí percebemos que estávamos na época mais baixa da época baixa na costa e começamos a ver a nossa vida a andar para trás. Watamu, que é uma povoação pequena, estava deserta e a maior parte dos hotéis fechados, incluindo o nosso. A culpa foi minha. Parti do princípio que sendo época alta para os safaris, ninguém no seu perfeito juízo ia deixar de visitar a maravilhosa costa do Índico. Não é verdade. Quem quer ver animais selvagens não está interessado na praia e vice-versa. Eu, cá para mim, cada vez me convenço mais que há gente muito estranha.
Com os nossos planos empenados e a costa deserta, Malindi acabou por nos parecer uma possibilidade agradável. Sempre tinha um pouco mais de vida, o reboliço que me aborreceria na época alta não existia e um bom negócio para alugar uma casa quase em frente à praia a um familiar de um dos nossos amigos, acabou por nos convencer.
No dia da viagem, acordamos cedinho para apanhar o autocarro de Mombasa para Malindi, a cerca de uma hora de viagem, e a Zimbie sentia-se muito mal disposta. Comecei a ver a minha vida a andar cada vez mais para trás mas lá fomos, depois de um “vai de autocarro”, “vai de matatu”, muita conversa com os angariadores de clientes e a Zimbie encostadita à mala a dizer que estava mal disposta e que precisava de espaço, conforto e um lugar à janela. Acabamos por viajar no Malindi Shutle Service, o Matatu dos Matatus, na fila da frente, com todas as condições para a doentinha.
O pior foi eu própria começar a sentir-me mal e a Zimbie continuar a piorar. A coisa acabou no consultório do Sr. Doutor, com as duas piores que o chapéu de um pobre e a Zimbie quase em estado de decomposição. Os nossos pobres estômagos e intestinos não gostaram da comidinha Swahili, apesar de nós termos gostado e querermos experimentar de tudo.
Entretanto, e para nosso espanto (eu fiquei para a minha vida com tanto azar), levamos com uma tempestade tropical em cima. Só nos restava a enorme capacidade de nos rirmos de nós próprias, num paraíso tropical, enfiadas na cama, com intoxicação alimentar e chuva e trovoada de bradar aos céus.
De Malindi ficamos com a ideia de ser um lugar aprazível fora da época mais turística (Dezembro), apesar de estar cheio de expatriados italianos, de os habitantes locais falarem em italiano a todos os mzungo, de haver um assédio irritante aos turistas e de os monumentos serem no mínimo hilariantes. Eu sei que não é bonito gozar com os monumentos dos outros, mas convenhamos, a coisa mais famosa é o Pilar do Vasco da Gama, que não passa de uma espécie de menir pousado em cima de um rochedo e que ainda nos obrigam a pagar para o ver… como se tivesse alguma coisa que ver… enfim! Depois, há a magnífica capela, igreja… já nem sei bem, Portuguesa, tão única que ficava ao lado de nossa casa e não demos por ela. Na verdade, é uma cabana com telhado de palha e dizem que os marinheiros portugueses rezavam lá. Eu cá para mim era a tasca dos tugas e a história foi deturpada.
Perante a falta de monumentalidade dos afamados lugares históricos, resta a Malindi e à costa em geral a monumentalidade da paisagem. A mesma paisagem encantadora da costa norte de Moçambique, com florestas de mangue e marés que fazem desaparecer o mar, palmeiras e vegetação luxuriante e areais brancos e macios onde apetece tudo menos estar doente em casa, comer esparguete de couve branca com caril (nem vou explicar!!!) e levar com chuva a torto e a direito.
Com este cenário, não nos restou mais nada senão desistir e regressar mais cedo a Nairobi para reorganizar o resto das férias. Não perdemos tempo e no dia em que decidimos partir, viajamos no autocarro da noite e tivemos uma experiência do outro mundo.

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4 Respostas

  1. Adorei a crónica! Não fossem as perpécias das doenças eram experiências para não esquecer. O imprevisto sempre à espreita de duas papa-léguas no "terra do nunca"Espero que tudo esteja já normal com vocês.Beijinho Fernanda

  2. Eu estava mesmo mal e o Malindi Shuttle Service foi uma bênção; era um luxo no meio dos outros todos em que quase nos obrigavam a entrar! AQzinha, esqueceste do outro grande monumento aos Tugas, a bonita vela de uma nau em betão, cuja placa começa por dizer "This momument commemorates Prince Henry the Navigator, founder of the Navigation School in Sagres" 🙂 E olha que a Capela Portuguesa tem a sua piada, só de imaginar os nossos marinheiros lá enfiaditos de joelhos a rezar pelas almas e pelas boas viagens! E eu explico as couves: Malindi é uma espécie de enclave dos Italianos. Há restaurantes e cafés italianos por todo lado. Passamos o dia anterior de cama a recuperar, a antibióticos, chá e bolachinhas secas. Pensámos que já podíamos comer qualquer coisa mais substancial, mais para o final da tarde depois de visitar os ‘monumentos’. Pedimos uma Vegetarian Spaghetti, para não abusar e até tive o cuidado de perguntar se tinha pimentos (sim, e pedi para os tirar). Veio uma massa com tiras de couve branca e temperada com carril, lolol, para além de estar bastante gordurosa!!! Imagina se ainda tivesse os pimentos! A única coisa que nos valeu nessa esplanada foram os dois Maasai que passaram na rua, na foto da história da AQ. Tive a presença de espírito de ligar a máquina e ainda os 'apanhar' a passar 🙂 Gostei muito de Malindi, apesar da gastroenterite e das tempestades 🙂 Italianos giros, no entanto, nem vê-los, eram só velhotes feios e reformados: os filhos e netos devem vir visitar no Verão 😉

  3. FernandaAs doenças acabaram por ser apenas pormenores de uma viagem fantástica e sim, ficamos finas passado uns dois dias, andamos com medo de comer durante uns cinco e depois esquecemos completamente a coisa :).Aproveito para aceitar aqui o convite feito no outro comentário ehehehe (eu podia lá recusar um jantar e noite de conversa com a família Pimenta!?). Está combinadíssimo, lá para Outubro fazemos a coisa :)Beijinhos!Zimbie, grande companheira de biage!Tens toda a razão, falhou-me o monumento ao infante, talvez o mais interessante apesar de a vela de betão estar no meio de um lago seco, num canto escondido de uma praça :). Eu reconheço que é giro encontrar referências á nossa cultura no outro lado do mundo, mas depois, olham para nós qd dizemos que somos tugas como quem nunca viu nenhum e só ouviu falar deles. É inconfundível aquele olhar que vai da cabeça aos pés e que parece gritar aos 4 ventos "então é isto um Português Ummmm!?"E a Capela portuguesa eu continuo a achar que era uma tasca. Então pode lá ser, os marinheiros chegam a terra depois de meses no mar (marinheiros que não eram propriamente a elite da armada)e a primeira coisa que lhes passa pela cabeça é rezar ao Sinhor! Pois… pois…Italianos giros há aos montes em Itália, minha linda… tens de ser menos exigente. Malindi é a secção geriátrica :)Beijinhos e continua complementar as crónicas!

  4. Realmente deve ser giro encontrar assim monumentos tugas praticamente do outro lado do mundo (bem sei que não é, mas é loooonge como se fosse!), e sobretudo terem-nos preservado todo este tempo. Desconfio que se soubessem por exemplo das barbaridades que foram feitas em Sagres até se engasgavam (e eram coisas "nossas"… imagina que era um monumento de marinheiros quenianos, ao tempo que já teria sido demolido e esquecido!).A mim a história da capela também não me convence. 😛 Um tasco já me parece mais viável… lol! 🙂

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