BYE BYE FLORA


Hoje é o meu último dia no Flora Hostel, o albergue gerido pelas Irmãs da Consolata, onde vivi nos últimos 2 meses. Tivemos uma relação difícil. Nunca me consegui sentir confortável com os horários rigorosos, o sino a tocar para as refeições e o regime espartano e começou a ser penoso imaginar toda a minha estadia em Nairobi em tão conventual retiro. No entanto, apesar tudo, foi um lugar onde me senti segura e onde conheci algumas pessoas que vão continuar a fazer parte do meu quotidiano e outras que apesar do encontro fugaz vou recordar sempre com muito carinho. Dois meses é tempo suficiente para ultrapassar alguns preconceitos e mal entendidos. Para ultrapassar o espanto das freiras pelo facto de ser portuguesa e não saber o que significa a sexta-feira santa (as freiras achavam que eramos todos beatos, eu qd vi os preparativos da procissão pensei que se tratava de um funeral) e chegar ao ponto de elas acharem que eu sou uma cristã em negação LOL, ou seja, sou mesmo boa pessoa e isso para elas é muito estranho se eu não for religiosa, portanto depois de algumas conversas hilariantes e interessantes, lá conseguiram classificar-me. Como diz a irmã Scolastica “You have goodness in you, so you don’t know but you have Jesus in your heart”. É bonito! Dois meses também é tempo suficiente para nos habituarmos a viver com o mundo inteiro. Nunca estive num lugar tão multicultural como o albergue. Se por um lado, no início senti muito a falta dos meus afectos, por outro foi extraordinário conhecer pessoas dos quatro cantos do mundo com os mais diferentes percursos de vida e profissões. Tem sido uma fonte de aprendizagem sem fim. Desde os cidadãos de países vizinhos como a Somália, o Sudão, o Burundi, o Ruanda, o Uganda, a Etiópia, que estão cá para fazer tratamentos médicos ou tratar de vistos e questões burocráticas, até Europeus, Americanos e Asiáticos que passam por cá em férias, em trabalho humanitário, em negócios. O desafio linguístico tem sido alucinante, às vezes já nem sei que língua estou a falar, misturo tudo, sonho em línguas estrangeiras… é um caos divertido. Fiquei famosa no albergue por falar cinco línguas e um terço (o Swahili ainda está muito fraquinho) e servi de intérprete a muito boa gente. A minha relação como albergue foi crescendo entre a vontade de sair e ter um espaço meu e o apego cada vez maior ao lugar e às pessoas.
Portanto amanhã, começo vida nova num apartamento que vou partilhar mas, apesar de estar muito feliz vou ter saudades do Rafael, o chefe de cozinha queniano que pratica italiano comigo e cozinha coisas que eu gosto de propósito e acha que eu tenho uma perigosa tendência para o vegetarianismo só porque não consigo comer carne todos os dias e vou ter saudades do Kim, que é coreano e vive em Africa há 15 anos, a trabalhar em projectos de desenvolvimento, que me deixa tonta com a quantidade de vénias que me faz quando fala comigo, mas que é um espirito brilhante, inteligente e conhecedor de Africa com quem adoro conversar e até vou ter saudades da irmã mais velha, que aparenta uns 150 anos e que tem o dom do teletransporte porque consegue aparecer, simplesmente, sem ninguem dar pela sua chegada e que me anda a tentar convencer há meses que o Franco era muito boa pessoa e que salvou a Europa do comunismo e da empregada de limpeza que me obriga a sair da cama as 7.30 da manhã, mesmo que eu não precise, porque ela tem de mudar as camas. Enfim há um rol de personagens fabuloso que vou guardar na memória e que tornaram a minha estadia aqui especial. Vai ser portanto uma espécie de divórcio amigável, depois de uma relação difícil de amor-ódio.
A partir de amanhã passo a viver com mais duas pessoas, um sul africano e uma sudanesa que trabalham em agências de desenvolvimento internacionais, mais ou menos da minha idade e temporariamente no Quénia também. A casa é muito bem localizada, aliás é na mesma zona do albergue, é enorme, está mobilada, vou ter um belo quarto só para mim e o resto da casa para partilhar e vou pagar um terço do que pago actualmente o que é muito bom. Os meus futuros companheiros parecem simpáticos e por isso acredito que vai correr tudo bem. No entanto, é bom saber que se não gostar posso sempre voltar para o “convento” e continuar a árdua tarefa de mostrar às freiras que uma verdadeira agnóstica, anticlerical, pode mesmo ser boa pessoa.

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2 Respostas

  1. tu minha querida vais pegar neste teu blog, dar um arranjo à coisa e vais fazer marketing junto de um editora!! Estas são as crónicas de uma verdadeira ‘travel writer’, para além do material de anteriores viagens que apenas partilhaste com alguns (conto-me entre as ‘privilegiadas’). E claro que os deuses habitam a tua alma, os do Olímpo e dos céus e das águas e das terras e do vento e do fogo… é preciso é gostar de e interessarmo-nos pelo mundo e as pessoas 🙂 Já se fez tanto mal em nome da fé, que mania :PBoas mudanças amanhã 🙂

  2. Hello 🙂 Sobre o assunto da religião, catolicismo, praticante ou não, ateísmo e quejandos tinha tanta coisa para te dizer lol mas fica para a tua volta! Entretanto, boa mudança e que os teus companheiros de habitação sejam dignos desse teu espírito alegre e solidário 🙂 E claro que tens de escrever um livro isso agora já é ponto assente 😉 bjs.

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