A OUTRA CIDADE


Uma coisa coisa boa deste meu trabalho é que me obriga a girar e a levantar as pedras para ver o que está por baixo e assim fico com uma perspectiva abrangente da realidade. Isto nem sempre é fácil ou agradável mas é fundamental. Já tinha aqui referido que Nairobi é uma cidade cheia de contrastes mas ainda não tinha mergulhado neles (e convenhamos que ainda não mergulhei, estou só a fazer snorkling).
Esta semana visitei uma organização de Comércio Justo que fica no Bairro de Lata de Mathare Valley, um dos mais antigos e o segundo maior da cidade. O maior, o famoso bairro de Kibera, tem mais de meio milhão de habitantes e fica já aqui ao lado da zona “bem” onde eu estou instalada. Já visitei e trabalhei em outros bairros de lata, em outras cidades (nomeadamente em Maputo, que conheço bem), mas nada se parece com o que encontrei aqui em Nairobi. Ao contrário daquilo que me é familiar os bairros de lata não se desenvolvem como um anel à volta da cidade. Aqui, eles crescem e aparecem onde há espaço e até parece haver uma lógica diferente, pois muitas das zonas periféricas da cidade são mais nobres e aí abundam as casas de luxo e grandes propriedades. Assim, toda a cidade é pontuada por estes bairros, maiores ou mais pequenos, e que estão em constante crescimento com o fluxo crescente de pessoas que abandonam o campo para tentar a sorte na cidade. De cerca forma constituem um microcosmos (muito macro em alguns casos), com regras sociais muito próprias, com um mercado imobiliário dinâmico (pois é, muitos dos “barracos” são alugados e fonte de rendimento e investimento para muita gente), etc.
Um facto que me surpreendeu é que a maioria das casas e “estabelecimentos comerciais” do bairro, são mesmo totalmente construídos em chapa. Parece lógico, eu sei, por isso mesmo se chamam bairros de lata, mas os que eu conheço são frequentemente construídos em adobe, com lama e pedras (o que mantém as casas mais frescas), com algumas casas com paredes de tijolo mesmo e a chapa apenas a servir de telhado e a remendar uma ou outra parede. Mas aqui, a chapa domina tudo. A chapa, o pó, o fumo e o lixo. As “casas” são quase coladas umas às outras, a privacidade é nula. O saneamento e a electricidade inexistentes, as vielas (sim, que não se pode chamar rua a sítios onde quase só se passa de lado) em terra batida. E claro, o verde da cidade, que tanto me encantou à chegada, não existe nestas paragens, nem os ecopontos, nem os “beautification programs”. Por vezes, o verde termina no quarteirão ao lado, mas nunca chega aos bairros. Aqui reina a paisagem árida, lunar, ao estilo “Mad Max”, coberta de chapa reluzente e um sentido de humor brilhante. É impossível não reparar em pormenores como o “Confort Funeral Services”, anunciado por uma tabuleta gigante pintada à mão na frontaria de um “barraco” esburacado e manhoso. (Depois de uma vida neste caos, há que pelo menos ser sepultado com conforto… é justo!)Lindo também é o “Sunshine Hotel”, que não deve ter um único raio de Sol durante todo o dia, pois está enfiado no meio de outros barracos num buraco lamacento. E não podemos esquecer o Hotel Barcelona e o Hotel New York a dar um ar cosmopolita à vizinhança. Igualmente impressionante é o número de Igrejas, de todos os credos que nascem como cogumelos pela cidade toda, mas que aqui, nos bairros de lata, encontram uma espécie incubadora. Os nomes são reveladores “Friends Church” (pois claro, valham-nos os amigos num sítio destes), “Hope Church” (booooring!), “End Times Glory Minister” (uns visionários bem informados) e por aí em diante. (A questão das Igrejas merece um post próprio. Eu ando a anotar os nomes sempre que passo por uma nova e a tentar perceber o fenómeno. A seu tempo voltarei ao assunto).
Esta foi uma primeira impressão, muito superficial. Mas vou voltar aqui e vou conhecer outros bairros de lata e irei dando conta do que vejo. Para já, vou mudar-me por umas semanas para o Monte Quénia. Não vai ser fácil sobreviver ao ar limpo e despoluído. Estou tão “agarrada” ao monóxido de carbono que temo pela minha saúde. Mas é a vida do “Perguntador” (tradução literal do swahili para investigador).

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5 Respostas

  1. Grandes mergulhos, senhora perguntadora!ah e os chapas, hiaces, são tocatocas em Bissau;) beijinhos e boas viagens

  2. SandrixPois é minha linda, o que me vale é que eu sei nadar 🙂 senão afogava-me!É pá, Tocatocas é lindo! Eu achava Matatus o máximo, mas acho que os Cabo Verdianos estavam mais inspirados :P.Obrigada e beijinhos para ti e para os teus meninos.

  3. Ups, afinal é na Guiné lol…

  4. E tem toda a lógica; quem investiga tem de fazer perguntas. :)É curioso que os bairros de lata apareçam assim, em qualquer lugar no meio da cidade. Faz pensar de que forma a cidade tem crescido nas últimas décadas e qual a razão para surgirem esses espaços livres aqui e ali, em vez de o crescimento acontecer do centro para a periferia, como é habitual.Com hotéis, igrejas e funerárias pelo meio, são cidades dentro de uma cidade… podia ser interessante, se não fosse sabermos as condições miseráveis em que as pessoas vivem.

  5. Adorei a “foto” a três dimensões! Realista. Uma África profunda. O mundo tem mundos que aguçam a vontade/necessidade de haver “perguntadores”. E que sejam muitos… Beijinhos, boa saúde e bom trabalho para a “perguntadora” de serviço no Quénia. Boa viagem até ao Monte Quénia e bom arejamento.

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