CONTRASTES E SINTONIAS


Não é fácil chegar completamente sozinha a um sítio desconhecido. É estranho e às vezes ainda acordo a pensar onde estou porque não reconheço nada à minha volta (e também porque acordo muito cedo e o meu cérebro ainda está parado, é verdade). De qualquer forma, há uma coisa que eu acho extraordinária: ficamos totalmente alerta e disponíveis. Absorvemos tudo o que acontece à nossa volta com voragem e damos conta de pormenores em que jamais repararíamos se tivéssemos a nossa atenção dispersa.
Uma das coisas que mais me tem chamado a atenção nestes dias de alerta é a diversidade. São coisas que todos sabemos na teoria, que eu me farto de ensinar em formações sobre interculturalidade mas nas quais raramente nos detemos a sério.
Estou feliz por ter escolhido o Quénia para o meu trabalho de campo. Da África subsariana só conhecia países lusófonos e ficaria para sempre com uma imagem distorcida do continente se não experimentasse outras realidades. Claro que os países lusófonos são todos diferentes, muito diferentes, mas partilham uma herança colonial e referências que os aproximam e que nos aproximam, a nós portugueses deles. Aqui tenho encontrado uma realidade muito diferente, desde a arquitectura (em Nairobi pelo menos, que é uma cidade com cerca de 100 anos apenas – em Mombassa e na costa já nos sentimos mais familiarizados), à língua, que é inglesa e dominada por uma mestiçagem que me tira do sério, aos pequenos hábitos quotidianos, aos códigos de comportamento. Mas hoje vi outra coisa… assim como se tivesse mudado de lentes e pudesse ver outras dimensões da realidade.
Já tenho um lugar de eleição no centro da cidade, o Centro Cultural da Alliance Française, que além de actividades excelentes tem um restaurante com esplanada num pequeno jardim encantador, resguardado do correrio do resto da cidade, ok! e tem café expresso e paninis e croissants e tartes de framboesa… adiante, e vou lá às vezes para ler, trabalhar e descansar. Hoje parei lá um par de horas pela tarde enquanto revia as últimas aulas de swahili e apercebi-me da música (que não costuma haver). Num canto do jardim um grupo de adolescentes tinha colocado colunas de som num computador portátil e presenteavam toda a gente com o último álbum do Justin Timberlake, ao mesmo tempo que ensaiavam uma coreografia do mais fiel hip hop e se divertiam com jogos de sedução próprios da idade. Desde o vestuário, ao comportamento, à música, tudo neles me fazia lembrar outros miúdos da mesma idade, portugueses e de outros lugares. Era uma banda sonora adequada (what goes around, goes around, goes around…) Noutro recanto mais afastado do jardim e mais resguardados e tímidos estavam outros miúdos a tocar violino e guitarra. Mais tímidos e recatados mas igualmente iguais a tantos outros miúdos de tantos lugares. Eu a estudar Swahili, eles a ser adolescentes. E que contraste com outros miúdos que encontrei ontem quando me perdi a pé numa zona menos “recomendável” da cidade. Miúdos maltrapilhos, que escolhiam objectos no meio de uma lixeira durante o horário em que deviam estar na escola e outros que carregavam mercadorias pesadas para os carros de gente grande que podia melhor com elas mas que não queriam sujar a roupa, e que olhavam com desconfiança para mim, que seguia segura e determinada como se soubesse exactamente para onde ia. Estes não devem conhecer o Timberlake, e não têm computador, nem roupas da moda, nem violinos. Os outros provavelmente não sabem que a alguns quarteirões de distância há uma lixeira nauseabunda que serve de mercado e parque de diversões. Uns pode pensar-se à primeira vista que saíram de qualquer grande cidade ocidental, os outros que poderiam ser de qualquer país africano. Na verdade são todos quenianos, vizinhos mesmo. Na verdade também há lixeiras no meu país.
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2 Respostas

  1. Quanto mais leio, mais quero conhecer 🙂 e é verdade, tanta beleza rodeada de tanta pobreza… os contrastes, que a maioria das pessoas que lá vivem já nem vêm… Continuas com o dom da escrita e da descrição :-)beijinhos

  2. Pois é, linda… nós também temos tantos contrastes à nossa porta e por vezes nem nos damos conta deles. :)Esse centro da Alliance Française deve ser bem catita, pela tua descrição. :)))

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