A casa dos relógios II


(continuação do conto que começa no post anterior)

Helena estava paralisada, de medo, de fascínio, de curiosidade segurando contra o peito o pequeno relógio de bolso quando ouviu vozes a aproximarem-se. Conseguia ouvir perfeitamente a voz de dois homens que se aproximavam da porta da sala e num instante de audácia, olhou em volta e correu para trás de um enorme biombo oriental, delicadamente lacado, onde se escondeu.

– Entre, meu caro amigo, mas que alegria me dá a sua visita… é tão raro vê-lo hoje em dia!
– Os negócios, Afonso, os negócios prendem-me e acabo por passar mais tempo no Brasil do que aqui.
– Vão longe os tempos despreocupados de Coimbra, não é meu caro Diogo? As voltas que a vida deu desde então… – disse Afonso com um sorriso, enquanto indicava ao amigo uma cadeira para se sentar.
– É verdade, estamos mais velhos, mais cansados, mais ricos também – retorquiu Diogo com um ar sarcástico. – Mas afinal que maravilha era essa que me queria mostrar? Se bem que é difícil suplantar esta casa que está a construir, que é uma verdadeira jóia.
– Esta casa é um disparate onde a minha mulher anda a ver se gasta toda a minha fortuna. Tem aquela inclinação para as artes e para as coisas delicadas e inúteis, que fazem com que as mulheres sejam incapazes de ter tino para negócios. Enfim, quanto mais ela andar entretida com a casa e com os filhos, menos me incomoda. Quase não nos vemos, a não ser quando recebemos convidados ou vamos a eventos sociais, e nisso ela é extraordinária, ninguém é mais elegante e requintado.
– Meu amigo, se bem me lembro a sua esposa é uma mulher requintadíssima e muito bela e esta casa faz juz à sua reputação – disse Diogo sem tirar os olhos do chão.
– Sim, sim, mas não viemos aqui para falar de mulheres – respondeu ansioso. – O que lhe queria mostrar era esta extraordinária colecção de relógios que comecei há uns dez anos, pouco depois de Coimbra e de o amigo ter ido tentar a sua sorte para o Brasil.

Nessa altura, Helena, que via a cena através de uma frincha no biombo reparou que não havia mais relógios na sala para além dos que estavam expostos nos armários com portas de vidro. Os dois homens observaram atentamente a colecção toda. Afonso extasiado a relatar a proveniência de cada relógio, as aventuras por que passara para o adquirir e Diogo, distante, a tentar seguir o amigo mas sem interesse nenhum na colecção.
De repente, Afonso olhou para um relógio e disse constrangido para o amigo:
– Perdoe-me, meu caro, mas esqueci-me completamente que tenho uma reunião importantíssima dentro de algum tempo na cidade. Fiquei tão feliz por o rever e entusiasmei-me tanto a mostrar-lhe os relógios que perdi a noção das horas e tenho mesmo de ir. Mil desculpas pela indelicadeza… mas temos de continuar a nossa conversa. Fique para jantar. Será um enorme prazer… Vou pedir para chamarem a Carolina, ela vai ficar encantada por lhe mostrar a casa e eu não demoro… pode ser?
Diogo engoliu em seco e ficou lívido mas retorqui com segurança:
– Sim, será um prazer meu caro amigo, temos muitas coisas para pôr em dia.
– Muito bem! Venha então até à sala azul, vou pedir para lhe trazerem um chá e entretanto a minha esposa virá recebe-lo. Até logo, meu caro Diogo.

E os dois homens saíram. Helena suspirou de alívio e esgueirou-se até à porta para espreitar o que se passava na sala azul através da fechadura. Lá estava Diogo sentado. Uma empregada a servir-lhe um chá. A sala toda forrada a azul e mármore branco era luminosa, parecia um pedaço de céu. Então, Diogo retirou o seu relógio de bolso para ver as horas. Helena olhou perplexa. Era igualzinho ao relógio que ela tinha na mão, que agora surpreendentemente marcava 6h22. Segundos depois entrou na sala a esposa de Afonso, Carolina. Trazia no braço uma pequena cesta com flores, que com certeza tinha acabado de colher no jardim, e parecia aos olhos de Helena, uma princesa saída de um conto clássico. Trazia um vestido verde que lhe realçava os olhos felinos, dourados e segurava o chapéu de palha que protegera a sua pele alva e o rosto perfeito, do sol do fim da tarde. Era a imagem da delicadeza.
As mãos de Diogo tremeram quando a viu, entornando o chá e ele levantou-se desajeitado mas sem jamais conseguir desviar os olhos daquela mulher. Ela não se movia desde que o vira. Tinha uma expressão de incredulidade e ternura no rosto que parecia dominar todo o espaço à volta deles. Helena sentiu uma angústia profunda perante aquela cena, como se pressentisse algo terrível. Olhou para o relógio que tinha na mão e ele estava parado novamente, marcando 6h23. Quando voltou a olhar pela fechadura viu apenas a sala vazia, como quando chegara à casa. Levantou-se e olhou em volta e voltou a ver todos os relógios que cobriam a sala. Pousou instantaneamente o relógio de bolso na mesinha ao seu lado e abriu a porta. Voltou a olhar as esculturas na parede, rodopiou pela sala, sentiu o ar frio e pensou que se calhar tinha tido um sonho estranho, que nada daquilo era possível, que estava a sonhar ainda.
“Gostaste do meu tesouro?” ouviu uma voz infantil a perguntar e olhou em seu redor sem ver ninguém.
“Estou aqui, olha para mim”, continuou a voz.
Helena olhou com mais atenção e então reparou no menino de mármore na parede, a brincar em cima de um cavalo de madeira. E viu perplexa o cavalinho começar a balançar, para a frente e para traz, para a frente e para traz e o rosto da criança risonho, às gargalhadas.
“Ora toca-me!” dizia ele. E Helena sem acreditar no que via aproximou-se como um autómato e obedeceu. Quando a sua mão se aproximou da mão da criança que segurava o cavalinho, esta soltou-o, agarrou a mão da Helena e saltou para o chão. Helena deu um passo atrás e caiu assustada. A criança ria sem parar e aproximou-se dela oferecendo-lhe a mão para a ajudar a levantar.
– Quem és tu? – perguntou Helena. – Como é possível… tu estavas na parede…
– Eu sou o Simão e esta casa é minha e eu queria mostrar-te o meu tesouro.
– Os relógios? – perguntou a Helena.
– Não… esse era o tesouro do meu pai. A magia… eu queria mostrar-te a magia…

(e continua ainda…)

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6 Respostas

  1. O palco estava montado, deu-se início à acção. E que acção! A descrição das peronagens está bem boa (e eu maço-me sempre com descrições!) e a história deu saltos suficientes para me manter pregado.Que venha depressa o resto!Beijinhos.

  2. O palco estava montado, deu-se início à acção. E que acção! A descrição das peronagens está bem boa (e eu maço-me sempre com descrições!) e a história deu saltos suficientes para me manter pregado.Que venha depressa o resto!Beijinhos.

  3. Está verdadeiramente mágica!

  4. ah, estou morta por ver como vai acabar…beijinhosana

  5. ah, estou morta por ver como vai acabar…beijinhosana

  6. MISS A, isto não se faz! Então e agora? Quanto tempo vou ter de esperar para saber o que realmente se passa nesta casa? Ao menos avisa-me quando a 3 parte estiver concluida…bolas …isto não se faz. É como estar a ver um filme de suspense e a dado momento as luzes da sala darem sinal de vida e um senhor entrar e proferir: para verem o resto do filme vão ter de esperar 1 mês! lolBeijinhos Miss A.Estou a adorar

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