Mar de Morte I


Já não conseguia abrir os olhos. O Sol do meio do dia a reflectir-se no mar criava um efeito de luz difusa tão intenso que diluía as cores da paisagem e cobria tudo com um véu leitoso, ofuscante, como se a estrela se incorporasse em tudo à nossa volta emitindo luz. O calor e a humidade há já muito que me tinham despojado da energia e da vontade mas agora sentia-me cegar. Mesmo com um enorme pano de algodão a cobrir-me o corpo e a cabeça e os olhos fechados era capaz de ver aquela luz uniformizadora como se ela estivesse dentro de mim. Estava aninhada no chão do barco, com as costas amparadas por dois enormes sacos de arroz a tentar abstrair-me da hora da canícula. O barco deveria levar-nos para a Ilha. Tínhamos enfrentado oito horas de picada, em plena época das chuvas, pelo meio da floresta tropical, para chegar ao lugar de onde partem os barcos para a Ilha. Tínhamos passado a noite no jipe, sem posição de dormir à espera que o dia nascesse para embarcarmos no primeiro barco que se fizesse ao mar. Mas a noite foi crescendo agreste e logo os relâmpagos nos deixavam ver o dia por entre trovejos assustadores. Era um presságio de chuva e má sorte. Quando o dia acordou deste pesadelo tivemos muita dificuldade em encontrar um barco que atravessasse o canal. Os homens tinham constatado mil e um sinais de má fortuna e fazendo fé nas suas crenças recusavam-se a contrariar a natureza.
Depois de uma acesa negociação, Mestre Josenias aceitou o serviço exigindo apenas que deixássemos vir connosco o pequeno Mardemorte, um miúdo órfão, lá do bairro dos pescadores. Enquanto esperávamos que a maré ficasse de feição para a viagem chegou uma mulher que nos pediu para a levarmos à Ilha. Viajava sozinha, era irlandesa e não tinha medo dos presságios de má sorte. Saíra da Irlanda para ir à África do Sul há anos mas ainda não chegara lá. Perdera-se no continente e deambulava de país em país na ânsia de encontrar sentido para a viagem. Nós éramos apenas dois e portanto havia muito espaço no barco para partilhar. A meio da manhã a chuva cortante amansou e acabou por desaparecer levando com ela o vento. Ao barco, parado no meio do mar, só lhe restava aguardar que novo sopro o encaminhasse. Era um barco tosco, construído por mãos hábeis mas sem grandes ferramentas, com uma vela de remendos e madeira bichada, talhado para a pesca e para viver ao ritmo das marés do canal.
A única preocupação de todos era protegermo-nos do sol e guardar as poucas energias que restassem. Cada um de nós estava coberto com o que podia, sem ousar movimentos, e um silêncio de morte tinha-se instalado no barco. Todos não… que Mar (o diminutivo que usavam para chamar Mardemorte) continuava desperto e vigilante, sentado na proa, de olhos bem abertos a perscrutar o horizonte. Há horas que não nos movíamos nem um milímetro e José, o meu companheiro de viagem começou a exaltar-se e quebrou o silêncio com agressividade, questionando Mestre Josenias sobre a necessidade de fazer alguma coisa, querendo saber onde paravam os remos e sobretudo muito enervado com a passividade de todos.

– Não tem remos no barco. A gente não rema contra a vontade do mar… a gente espera… – disse calmamente o Mestre deitado junto ao leme, sem abrir os olhos.
– Mas que merda é esta? Assim vamos morrer todos! Estamos aqui há horas parados, quase sem água, sem comida e eu preciso chegar esta tarde à Ilha – continuou o José cada vez mais exaltado, enquanto eu me mantinha imóvel, agora com a cabeça descoberta mas quase sem respirar.
– Nada! Aqui só vão morrer dois e tem muito tempo ainda – disse subitamente Mar, desviando os olhos do horizonte e voltando-se para trás.
– Que raio…? Mas… ouviram isto? Tu não me enerves fedelho! – disse o José lançando-se na direcção do Mar como se o fosse atirar borda fora.
– Calma! – Disse-lhe a irlandesa num português cheio de sotaque, agarrando-lhe o pulso e fazendo sinal com a cabeça para olhar em volta pois os três ajudantes de Mestre Josenias tinham despertado da sua hibernação e fitavam o José com ar ameaçador.
– Sossegue patrão, que o tempo já não está nas nossas mãos. Gente agora tem de esperar, que o mar tem seus caprichos e suas razões. E não toque no Mar, que ele é nosso leme e nosso mapa nesta viagem. Ele nasceu no mar e nessa mesma noite o barco onde ia afundou levando todos os outros para o outro mundo. Só ficou Mardemorte, filho do mar e filho de toda a gente, como são as crianças na nossa terra – continuou sereno Mestre Josenias.

Contrariado José voltou a sentar-se ao meu lado. A irlandesa cobriu a cabeça com uma capulana e encostou-se no fundo do barco. Os homens voltaram a deitar-se. Mar contemplou novamente o horizonte. E eu voltei a cobrir-me e a chorar baixinho como era meu hábito desde o dia em que decidi matar o José. De repente sentimos um movimento, a madeira rangeu ruidosa e o barco tombou e ficou deitado como se tivesse chegado exausto a um destino e não aguentasse nem mais um minuto em pé. Caíram-nos em cima as mochilas, os sacos de arroz, as cordas, caímos uns em cima dos outros e quando nos conseguimos levantar olhamos em volta e vimos areia até perder de vista. O mar tinha desaparecido e o velho barco estava agora encalhado no meio de um infinito deserto.
(continua)

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3 Respostas

  1. Uau! Já estou de olhos esbugalhados à espera do resto da história! 😀

  2. 🙂 Esta história tem fermento a mais. Não pára de crescer. Tá difícil dar-lhe um fim, mas já está no forno e no fds deve ficar prontinha :P.Beijocas

  3. Vou continuar a ler DEAR A.QUEEN :DQuero saber o fim. beijinhos

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