Tertúlia no Jardim Tunduru


Estavam todos reunidos à volta de um antigo banco de jardim. Sentado ao centro com um livro na mão, Feliciano lia com vivacidade para os demais que ouviam muito sérios aquelas palavras que ganhavam vida na sua boca. O Jardim Tunduru era cúmplice destas reuniões literárias que sempre que possível aconteciam aos sábados de manhã sob as suas árvores centenárias que protegiam o grupo dos olhares curiosos e do sol. A maioria dos rapazes mal sabia ler. Sabiam outras coisas, eram mestres na disciplina de “Fazer pela Vida” desde muito cedo mas não sabiam arrumar bem as letras para criar palavras. Eram sete amigos, todos do Bairro do Aeroporto, quase todos vendedores de batiks. O José e o Alface também eram aprendizes de “artista dos batiks” e ao fim de semana vinham tentar a sorte e vender peças aos turistas juntamente com os amigos vendedores. Sim, porque o grupo apesar de informal funcionava como uma empresa. O Mestre Neto era um artista reconhecido e o seu trabalho podia encontrar-se nos melhores pontos de venda de Maputo, do Piripiri ao Hotel Polana, da Costa do Sol ao Mercado Central. Era ele que desenhava directamente a esferográfica no pano de algodão e que tinha na cabeça a paleta de cores da obra final; depois um grupo de aprendizes “pintavam” pacientemente com a cera derretida e tingiam as várias camadas de cores; primeiro o amarelo, depois o laranja, o vermelho, o preto ou o azul.

O José era o mais novo do grupo e não teria mais de catorze anos. Depois de muitos anos a ajudar a mãe no mercado do peixe tinha chegado à conclusão que queria uma vida menos dura. A ideia de trabalhar sentado todo o dia, trocar o pivete do peixe pelo cheiro da cera e das tintas e ainda poder dizer que era um artista fizeram-no encher-se de coragem e ir falar com o Mestre Neto, seu vizinho. Da sua casa, parede com parede com o pátio do “atelier” José podia ver os batiks coloridos pendurados ao sol, ouvir as galinhas e os patos que passeavam de um lado para o outro e aperceber-se das conversas alheias. Um dia surgiu a grande oportunidade.
– Alface! Andas adormecido outra vez?! Deste com o vermelho no lugar do laranja! Tá tudo estragado, tudo estragado.
– Xi! Desculpa mestre… me distraí…
– És o mais antigo e é só asneiras, só asneiras… desaparece da minha vista!
– Mas eu não posso… – começou Alface a balbuciar como se estivesse à espera de se tornar invisível.
– Desaparece daqui, não te quero ver mais hoje! – Gritou o mestre irritado. E Alface fugiu a correr levantando uma nuvem de poeira e criando um tumulto entre os patos e galinhas que andavam pelo pátio.
José não teve meias medidas e resolveu passar “por acaso” na casa do mestre aproveitando o alvoroço. Contou do seu sonho de ser artista e da dificuldade de convencer a mãe a prescindir da sua ajuda no mercado. Falou como se a arte lhe corresse nas veias e a sua vida dependesse desta oportunidade. Mestre Neto ficou impressionado.
– Eu entendo-me com D. Ermelinda. Ficas aqui a aprender, no lugar do Alface que só dá desgosto.
– Mas pai, o Alface tem mulher e filho e precisa do trabalho – disse Feliciano, o melhor dos aprendizes.
– Assunto encerrado!
– Pai, ele é bom desenhador você é que não deixa ele fazer desenho – insistiu.
– Ele é bom desenhador! Bom desenhador! Então não te lembras quando eu estive doente há uns anos, dos belos desenhos que ele fez de helicópteros?! Batiks cheios de helicópteros por cima das palmeiras, das casas, dos barcos de pesca… helicópteros! Tão bem desenhados que nem sequer passavam por pássaros. E sabes quantos vendi, quantos? Nem um! Nem um!
– Isso foi depois das cheias. Isto andava cheio de helicópteros da ajuda internacional e nós ficávamos a ver aquilo todo o dia e ele quis imortalizar o cenário nos batiks – continuou o Feliciano a defender o amigo.
– Isto é um negócio sério. A gente desenha o que o turista quer e não o que a gente gosta. Já alguma vez viste uma girafa? Não! Mas turista gosta e portanto a gente desenha girafas como se elas passeassem todos os dias aqui pelo bairro… Percebes!? Turista não sabe que no nosso bairro não cabe girafa, que está cheio de gente que mal se pode mexer, mas não interessa… Percebes?! – gritou Mestre Neto muito vermelho com as veias do pescoço salientes e o olhos a soltar faíscas.
– E tu José fica descansado. Amanhã falo com a tua mãe e tudo se resolve.

Acabou por correr tudo bem. José conseguiu o que queria e mestre Neto, que afinal tinha coração mole, acabou por deixar ficar o Alface. Só que para não ter prejuízo acabou por integrar os dois no grupo de vendas em part time. Durante parte da semana eram aprendizes e durante a outra metade eram vendedores juntamente com outros rapazes. Ao sábado era dia da feira do Pau Preto junto ao forte e Mestre Neto tinha um ponto de venda privilegiado onde se concentravam quase todos os seus vendedores. A estratégia comercial estava bem sabida, que era aquela a vida deles. O segredo era vencer o turista pelo cansaço, rodeá-lo de tanta obra de arte que ele perdia o discernimento, deixá-lo sem ar e sem fala no meio de uma roda asfixiante de vendedores em aparente concorrência, todos a gritar em uníssono “Faço bom preço, patrão! Faço bom preço! Olha que ninguém tem preço melhor!” até que num acto de sobrevivência o turista aponta para um batik qualquer, compra sem reclamar o preço e foge dali. É uma estratégia quase sempre eficaz, pelo menos com os turistas mais desavisados e cheios de medo dos assaltos e da violência da cidade.
Feliciano, que é só artista também costuma ir, mas não vai vender nada. Ele gosta de subir até ao Jardim Tunduru e sentar-se por lá tranquilamente a ler. Se chover sobe mais um pouco e vai até ao Centro Fanco-Moçambicano, mas do que ele gosta mesmo é de ficar no jardim no meio do verde e de todas aquelas árvores e plantas dos quatro cantos do mundo. Um dia, os outros rapazes estranhando as suas ausências prolongadas e pensando que havia rabo de saias naquela história resolveram segui-lo e quando perceberam que estava simplesmente a ler começaram a gozar com ele até que Feliciano lhes propôs sentarem-se em volta dele e ouvirem a história que estava a ler. A partir daquele dia, as manhãs de sábado tornaram-se sagradas para todos. Um romance podia demorar meses a ser lido em voz alta e o grupo esperava ancioso sábado, após sábado para conhecer o resto da história. As vendas ressentiram-se e Mestre Neto reclamava, mas a culpa era sempre dos turistas que não apareciam, ou da concorrência que era muita… e a vida continuou como sempre.

A inauguração da exposição tinha atraído muito mais gente do que se esperara. A sala estava cheia e as pessoas, muito elegantes nos seus trajes de cerimónia, conversavam alegremente enquanto apreciavam as fotografias expostas e aguardavam o momento solene da entrega de prémios. O evento era famoso e reunia sempre o trabalho de alguns dos fotógrafos mais proeminentes do país, que se tinham destacado com trabalhos sobre o continente africano. Em destaque, no meio da sala encontrava-se a fotografia vencedora do primeiro prémio. As pessoas admiravam-na com um ar enternecido, sorriam muito e sussurravam entre si. Tomás Valentim era o grande artista da noite e estava rodeado por admiradores que não paravam de elogiar aquele trabalho.
Finalmente deram início à cerimónia de entrega de prémios e o presidente da Associação Nacional de Fotógrafos Profissionais colocou nas mãos de Tomás Valentim a máquina fotográfica de cristal ao que se seguiram inúmeros aplausos e a conferência de imprensa.

– Sr. Tomás Valentim, quando viu esta imagem, soube logo que podia tornar-se numa obra de arte? – perguntou entusiasmada uma jornalista na primeira fila.
– Essa é uma pergunta difícil… não sei… sabia com toda a certeza que estava perante um quadro vivo comovente e único…
– Teve oportunidade de conhe
cer pessoalmente algum dos intervenientes desta situação? – perguntou outro jornalista?
– Não, confesso que não me atrevi a interromper aquele momento sublime e limitei-me a imortalizá-lo.
– Sr. Tomás Valentim, acho que todos nós teremos a nossa interpretação pessoal para o que está acontecer nesta imagem, mas gostava de conhecer a sua. Você que esteve ali, tão perto, diga-nos… o que é que nós estamos a ver?
– Estamos com certeza perante um grupo de rapazes que representa a energia, a potencialidade e o futuro promissor de um país extraordinário. Um país onde nem todos os jovens têm de trabalhar, onde muitos deles se formam com qualidade e discutem novas ideias. Quem sabe se não estarão entre estes jovens alguns dos futuros intelectuais e dirigentes de Moçambique?

A conferência de imprensa continuou, com o artista a falar da sua obra e da sua carreira que chegava agora a um momento de consagração. O público e os jornalistas ouviam encantados as suas palavras e não tiravam os olhos da enorme fotografia pendurada por trás de Tomás Valentim onde se podia ver um banco de jardim onde um jovem com um livro na mão discursava perante um grupo de outros jovens que o rodeavam concentrados, descontraidamente sentados a seu lado ou no chão à sua frente. Ao lado, o título da obra :“Tertúlia no Jardim de Tunduru. (Maputo, 2006)”.

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6 Respostas

  1. Mais uma bela história. 🙂 Gostei, sim senhora! 🙂

  2. A.Queen, mais uma história que ADOREI! Quando leio as tuas histórias é como se estivesse a ler parte de um livro, que vou continuar a ler mais tarde após uma pausa ;)A volta que deste no final está brilhante.”Um país onde nem todos os jovens têm de trabalhar, onde muitos deles se formam com qualidade e discutem novas ideias.” Dá vontade de rir. Nós que estamos por dentro da história, temos mesmo vontade de rir, eu pelo menos tive, quando li a resposta do galardoado.Beijinhos

  3. lolol!! estava mesmo a ver qual o objecto da foto :)) a passagem da descrição dos artistas dos batiks para a conferência de imprensa está genial! comecei por pensar o que tinha uma coisa a ver com a outra… e depois a foto, o fotógrafo a descrever a nova geração de jovens moçambicanos intelectuais… e pensei, só pode ser uma foto dos artistas no jardim, em ‘tertúlia’! muito fixe!

  4. :)Já agora deixem-me dizer que esta cena aconteceu mesmo… o grupo de rapazes a ouvir um deles a ler no banco de jardim. E o meu primeiro pensamento foi “isto merecia uma fotografia” só que como não andava lá a fazer turismo, não tinha máquina comigo e recuperei o tino 🙂 e comecei a sentir-me ridicula com o meu próprio pensamento e a ponderar precisamente todas as possíveis explicações para aquela cena. Há outros factos da história absolutamente reais… mas esses já deixo à vossa imaginação. Aliás, todas as histórias nascem de factos que eu vivi, a que assisti ou que me contaram e tem sido um exercíco fantástico encontrar recursos para recontar esses factos :)Obrigada pela vossa força e pelos vossos emoticões :)Já, já vêm aí mais histórias… tão no forno!Beijinhos

  5. “Há outros factos da história absolutamente reais… mas esses já deixo à vossa imaginação.” :DTu deixas muito à nossa imaginação lolBeijinhos

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