Emília


Um dia, num lugar improvável encontrei uma rapariga extraordinária, a Emília. Conhecemo-nos em Mabilibili, uma aldeia da província de Maputo em Moçambique, a sessenta quilómetros e mais de três horas de distância da capital, em 2003 e nunca a vou esquecer. Eu estava lá a tentar aprender coisas que achava muito importantes. Ela estava lá a tentar fugir da vida que a sorte lhe reservara. Tinha dezasseis anos mas o rosto dela, duro e fechado, parecia ter vivido muito mais vida. Havia nela qualquer coisa de selvagem, de indomável e uma força perturbadora no olhar que não deixava ninguém indiferente. As colegas do internato da escola não gostavam dela. Tinham-lhe medo. Ela também não parecia importar-se com isso. Aliás parecia que mais ninguém existia para ela, como se estivesse num limbo, entre mundos, de passagem para outro lugar. Tinha nascido na Suazilândia, para onde a família fugira durante a guerra, num campo de refugiados. Depois cresceu na África do Sul onde o pai trabalhara nas minas até a família ter ganho coragem para voltar às origens, à Ponta do Ouro, no extremo sul de Moçambique. Nunca encontraram mais do que a pobreza e a fome em nenhum destes lugares. E a ela, apesar do seu porte altivo e da inteligência aguçada, a vida parecia não ter muito mais para oferecer. Já devia ter casado, ter filhos e estar a cuidar da casa da família do marido, a apanhar lenha e a cozinhar, a ir buscar água a quilómetros de distância, a lavrar a machamba para ter o que comer. Mas a Emília estudava. Era a melhor aluna da turma dela e tirando um ou outro ano perdido na deriva da família, ela nunca tinha reprovado. Enquanto as colegas da mesma idade brincavam umas com as outras fazendo tranças e rindo às gargalhadas, a Emília, que eu nunca vi sequer sorrir, passeava sozinha pelas redondezas. A escola, o internato e o poço comunitário ficavam no centro da aldeia, mas dali apenas se viam os pequenos caminhos de terra que se embrenhavam na mata desenhando um labirinto de caminhos que uniam as casas, distantes umas das outras. A Emília tinha o hábito de percorrer o labirinto sozinha e quando por acaso a via, ficava sempre com a sensação que ela estava apenas parcialmente na minha frente. O olhar dela, distante, ausente, andava perdido em outras paragens.
Um dia perguntei-lhe o que gostava mais de estudar. “Física” disse ela prontamente. “Gosto de tudo, mas a física explica como é feito o mundo”. “E que profissão gostavas de ter?” insisti eu. “Vou ser engenheira civil e sair desta miséria. Quero construir estradas!”
Pouco tempo depois desta conversa vim embora e nunca mais vi a Emília. Espero que ela tenha conseguido pelo menos, construir uma estrada qualquer para chegar a outro destino. De facto, o lugar dela não era ali.

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3 Respostas

  1. African Queen, adorei o texto. Sim pelo que descreves o lugar dela não era mesmo ali. As aspirações dela eram outras. Num país repleto de miséria encontrar uma alma assim deve ser algo que nem as probabilidades contemplamGostei da parte descritiva do texto no que diz respeito aos locais como por exemplo quando mencionas;suazilândia.Fico com a ideia de que conheces bem Africa. Se estou enganada, então o teu trabalho de pesquisa foi bem feito ;)Saudações alienígenas & beijinhos

  2. :)A minha primeira visita alienígena… que emoção!! Fico feliz por teres gostado deste pequenino universo.Quanto ao meu reino :)… conheço muito menos do que gostaria, mas conheço bem os lugares onde já estive. África pertence a outra galáxia muito distante :)Abraço

  3. Bem me parecia que tinhas de ter conhecido Africa. Há aqui uma magia nestes textos ;)Beijinhos Queenp.s não será a a primeira e última visita lol

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