Clara


Era uma carta emotiva, escrita com caligrafia quase infantil, que lhe queimava as mãos e fazia disparar o ritmo cardíaco a cada frase “É um orgulho ter na nossa aldeia uma pessoa com tamanha capacidade de compaixão e dedicação aos outros”, “Rezo a Deus para que te proteja nessa missão tão importante”. O nome que constava no remetente era-lhe completamente desconhecido, mas o nome dela, Clara, era familiar para aquela mulher que lhe escrevia de longe e que a tinha em tão grande consideração.
– Clara, anda comer… não me digas que estás outra vez a receber cartas de admiradores?! És a rapariga mais famosa de Terras do Bouro.
– Nada disso, ela é quase uma santa por lá.
– Parem com isso! Estas cartas não significam nada, são desabafos de pessoas que não têm com quem conversar e que acham extraordinário o simples facto de alguém sair da aldeia.
– Minha amiga, estás enganada. Quando voltares para casa tens direito a uma estátua na igreja da aldeia, ao lado da nossa senhora e a um passeio anual de andor na procissão de Agosto.
– Lá estão vocês a gozar comigo! Vamos mas é planear as actividades de amanhã que há muito trabalho pela frente.
– Ainda não é público, mas ontem quando fui buscar o António ao hospital, dei-me conta que o surto de cólera está a crescer a olhos vistos. Já há muita gente de quarentena. Não era má ideia reforçar os cuidados com a água e a higiéne.
– Vamos fazer uma reunião geral com as mamãs. Afinal são elas que cuidam dos miúdos dia e noite e são muito mais do que funcionárias da instituição.

O pôr do Sol estava encantador. Era quase impossível desviar os olhos do céu e ali na praia então, o efeito ainda era mais hipnotizante. A baía de Wimbi parecia que ia pegar fogo com o mar a espelhar aquela maravilhosa combinação de laranjas, azuis e amarelos como se estivéssemos a olhar para a paleta de um pintor que tenta criar uma nova cor fulminante. Só sabemos que não vão erguer-se labaredas devoradoras porque estamos rodeados pelo cheiro doce do mar e pelo verde fresco das árvores atrás de nós. A Clara não conseguia tirar os olhos deste cenário e cada vez se aconchegava mais no abraço do Luca.
– Ei! Dorminhoca, acorda! São quase seis da manhã, temos de nos despachar.
– Ummm… não… mas temos… o quê?
– Olhem para ela. Tá com ar de quem estava a sonhar com o italiano mais famoso de Pemba.
– A nossa menina também é a mais famosa da terra dela. Fazem um belo casal, sim senhor!
– Ó pessoal… deixem-me… acordar… que raio…
– Clarinha, meu amor, vá lá! Veste-te e vamos embora e não sonhes mais com o bello Luca.
– Eu não sei o que ela viu na criatura…
– Pois não, porque és cego! Senão mesmo sendo gajo e mesmo não gostando de homens percebias que o moço é um arraso.
– Parem com isso. Os bidões têm água? Posso ir tomar o meu banho?… Além do mais eu não estava a sonhar, eu não sonho, vivo com vocês, por isso só posso ter pesadelos!E saiu a correr, a fazer caretas para os amigos.
Estavam juntos em Pemba há quase um ano. Eram todos voluntários. Trabalhavam com os meninos deficientes do orfanato. O famoso Luca, era um novo voluntário italiano, de passagem por Pemba e pelo coração da Clara. Ela era a única portuguesa e resolveu ir para Moçambique depois de ter estudado em Itália durante um ano lectivo. Nessa altura, andava na Universidade do Minho, mas não lhe bastava ter saído de casa para estudar na cidade, queria mais, e então resolveu ir estudar um ano para fora. Foi um ano que mudou a vida dela. Nunca ninguém na aldeia tinha ido assim, para fora, estudar… Depois foi uma bola de neve. O curso acabou e ela só queria voltar a partir. Foi quando surgiu a possibilidade de Moçambique. Foi quando começou a nascer a lenda.

– Artur, a nossa Clara nunca mais nos dá uma data certa para o regresso. Só sabemos que é no próximo mês, mas ela não se decide.
– Estou morto por a ter em casa. Faz-nos falta a alegria dela. E fico sempre preocupado com ela lá… as doenças… sei lá, ando há um ano com o coração nas mãos.
– Deus protege-a. E devemos dar graças a Deus por termos uma filha assim, que é um exemplo para todos. Ouviste o que o senhor padre disse hoje na missa, sobre ela? Fiquei tão emocionada.
– Eu não me interessa. Eu só quero a minha filha aqui, com a gente outra vez… às vezes acho que ela não quer voltar e que está a adiar esta decisão a ver se arranja maneira de ficar lá.
– Ó homem, não sejas assim. Então a rapariga ia ficar lá para sempre a fazer o quê?
– Vamos ver, vamos ver…

Clara pegou na bicicleta e foi dar uma volta. Era domingo, não tinha nada para fazer e queria estar sozinha. Meteu o livro de contar a vida na sacola e abalou pela beira-mar. Não tardou a afastar-se da cidade, da praia do Wimbi e a embrenhar-se na mata costeira pelos caminhos que levam às praias selvagens, de areia branca e mar verde esmeralda, transparente e puro, quente, sem ondulação e bordejadas por palmeiras gigantes que parecem tocar o céu. Mas não estava sozinha. Tinha por companhia os pescadores, que com a água pela cintura atiravam as redes ao mar generoso. Mas a praia é muito grande e é fácil encontrar tranquilidade e silêncio.Sentou-se a contemplar a paisagem. Sentia uma dor aguda no coração sempre que pensava que em menos de um mês teria de partir. Sentia uma dor ainda maior sempre que pensava que em menos de um mês teria de chegar a casa… a casa… Um lugar para onde a remetiam todas as memórias da infância mas onde ela não era capaz de projectar o seu futuro. Aquele pequeno vale verde que fora todo o seu universo parecia-lhe agora castrador, desencantado, estéril. Clara sorriu triste. Pegou no livro de contar a vida, que era como ela chamava ao diário que a acompanhava para todo o lado e releu novamente as últimas anotações: “Não encontro forma de ficar cá, ou de continuar este trabalho noutro lugar qualquer do mundo. No orfanato não precisam mais de mim, querem dar oportunidade a novos voluntários. E todas as pessoas que conheço que me podiam ajudar, acham que eu quero ficar pelas piores motivações, por medo, e aconselham-me a regressar e pensar bem. Ainda tive esperança de encontrar um grande amor. Era um bom motivo para ficar. Mas estou condenada a cruzar-me com pessoas em trânsito, como eu. Sinto-me tão perdida!” Fechou os olhos e suspirou e as lágrimas começaram a cair sem parar. De repente sentiu que não estava sozinha. Abriu os olhos e viu-o, sentado, tranquilo à sua frente, como uma aparição milagrosa.
– Então, moça, não pode chorar tanto assim.
– Não me apercebi da sua chegada, Mais Velho…
– Eu sou assim, nunca ninguém dá por mim quando chego. Só sou importante onde não estou. É o meu destino.
– Mas… isso parece-me muito triste.
– Sabe moça… vou contar-lhe uma história. Eu nasci muito tarde, muito depois dos nove meses, de muita reza, muitos rituais, muita conversa entre os vivos e os mortos. Minha mãe não aguentava mais sentir-me a crescer nas entranhas como se estivesse a alimentar-me da sua própria carne, da sua própria vida. Meu pai ganhou medo do filho que não queria conhecer o mundo. Não podia ser coisa boa. Nenhuma criatura parava o relógio da natureza para atrasar o seu nascimento. Os antepassados, em alvoroço, com este escândalo natural, atazanavam os vivos com exigências mirabolantes na tentativa de repor a ordem. Durante muitos meses fui considerado culpado de todas as desgraças que se abateram sobre a nossa aldeia e a nossa gente. Acreditavam que eu até era capaz de mudar o sol de lugar, de secar os rios e o mar, de soltar os ventos e as doenças. Um dia quiseram me matar. A mim e a minha mãe, que era todo o meu universo. Vieram os feiticeiros mais importantes da terra, deram-lhe a beber umas ervas que lhe adormeceram a vida e abriram-lhe a barriga. E nessa precisa altura eu nasci, e vi o mundo e os
Homens e fiquei entregue à minha sorte, renegado e abandonado no mato. Assim, nunca me gostaram, nunca me conheceram e nunca esqueceram o filho que gozou a ordem das coisas e não queria nascer.
– E nunca mais voltou à sua aldeia?
– Nunca. Mas sei de tudo o que se passa por lá. Por onde passo oiço sempre rumores da famosa aldeia e histórias sobre mim, ou melhor, sobre o mito que criaram a meu respeito, o filho maldito que não queria nascer.
– Deve sentir-se muito só no mundo…
O Mais Velho sorriu, sereno e pegou na mão da Clara.
– Hoje estou aqui com a moça, a contar histórias para lhe aliviar o coração. Não estamos sozinhos. Nunca.
Clara sorriu também e levou as mãos ao rosto para secar as lágrimas. Quando voltou a abrir os olhos não viu ninguém. Ficou desorientada a olhar para a praia, ergueu-se para tentar ver mais longe, mas não viu vivalma. Nem o Mais Velho, nem os pescadores que ao longe andavam na sua lide… ninguém.
Voltou a sentar-se perplexa e, de repente, viu, num vislumbre, as pegadas que partiam do lugar onde estava e que uma onda do mar suavemente apagava.

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5 Respostas

  1. Mais um excelente texto.Uma curiosidade. O meu irmão esteve em PEMBA com a ex-namorada há uns 5 anos e veio de lá fascinado. Tão fascinado que não se cala sobre o facto de querer regressar :)beijinhos

  2. 🙂 Coitado do teu irmão! Tens de o informar, com jeitinho, que ele apanhou uma doença grave e crónica: Africanite. Acontece a muito boa gente. Um pé em África e fica-se agarrado para a vida. Os sintomas podem ir desde a melancolia à euforia que faz com que os doentes não se calem e atormentem quem os rodeia… e a saudade, sempre constante. Aconselho umas visitas regulares para aliviar os sintomas. Não cura a doença mas ajuda muito :)Beijinhos

  3. A.Queen, eu sei! Fartei-me de ver fotos. Da cabana na praia aonde eles passaram os dias. Dos lugares maravilhosos que conheceram etc etc etc…e sei que ele vai regressar. A úncia coisa que ele detestou foi a viagem, a ultima parte. O avião não era grande coisa e a turbulência foi horrível, mas ele passa por tudo de bom grado outra vez lolBeijinhos

  4. Um beijinho grande,admiro-te, Hugo

  5. Obrigada Hugo! Volta sempre.

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